Nos embalos da terceira idade
Sáb, 25 de Julho de 2009 06:50    PDF Imprimir E-mail
Comportamento

A idade é só um detalhe para um grupo de idosos de Londrina que reúnem-se todos os sábados para exercitar uma atividade bastante prazerosa, a dança. O grupo de dança Kotobuki existe há três anos, mas seus componentes - a maioria nikkeis - reúnem-se há mais de dez com objetivo único de se divertir.


Terceira idade sim, mas com muito ritmo

O grupo Kotobuki faz dos movimentos do corpo uma terapia para a vida e esquecem dos problemas com sessões de dança de salão

                                                                                                               Vivian Fukushima

O grupo pé-de-valsa não fica parado um minuto

Vivian Fukushima
De Londrina

A relação entre saúde, envelhecimento, exercícios físicos, interação e qualidade de vida vem sendo cada vez mais discutida e estudada por pesquisadores do mundo inteiro que acreditam que a integração de todas essas variáveis pode ser um dos segredos de um envelhecimento saudável. Atualmente, o termo saúde não significa apenas a ausência de doença. Engloba também aspectos físicos, psíquicos e sociais.
E almejando uma vida mais saudável, 49 idosos de Londrina reúnem-se todos os sábados para uma atividade bastante prazerosa e que proporciona benefícios para o corpo e mente: dançar. O grupo de danças Kotobuki (que pode significar felicitações, vida longa) existe há três anos com essa denominação, mas seus componentes (a maioria nikkeis) reúnem-se para dançar há mais de dez anos.  
Quando se fala em grupo de dança de idosos nikkeis, a idéia que vem à mente são músicas e movimentos no estilo oriental. Realmente, seguir a tradição é muito importante para todos, por isso, o grupo inclue nos ensaios o bon odori e, algumas vezes, o matsuri dance. Mas o ritmo que embala as tardes de sábado são muito mais agitados: forró, salsa, lambada e outras danças de salão.

                                                                                                                   Vivian Fukushima

 O aquecimento já começa no embalo do axé


Os encontros começam sempre às 14 horas, e já no alongamento dá para perceber que é o grupo é diferente. O som escolhido para começar a aquecer o corpo é o axé. Logo em seguida, chega a hora do country tomar conta do ambiente e todos seguem à risca os ensinamentos do sensei Celso Suono, 39 anos, que está com o grupo há quase dez anos e é o único com menos de 50 anos. “Eles são muito animados, mais até que muito jovens”, diz. “Antigamente, quando a pessoa chegava na idade deles, a única opção era ficar em casa, parado, sem ter o que fazer. Hoje, eles tem a oportunidade de levar uma vida diferente e aprender  vários estilos de dança que os deixam bastante animados”, completa.
O sensei conta que, apesar das idades avançadas – um dos alunos tem 90 anos - , não encontra dificuldade em ensiná-los. “Eles se ajudam muito. Quando percebem que alguém tem alguma dificuldade, eles mesmos dão um jeito de ajudar. São bastante unidos. Todos os movimentos são adaptados à capacidade de todos”, diz Suono.
Júlio Yamaguti, de 81 anos, é presidente do Kotobuki desde 2004. Ele conta que o grupo, que fazia parte da Acel, se formou para melhorar a integração entre os nikkeis, considerados muito tímidos. “Hoje, dançamos vários ritmos, mas foi bem difícil começar porque todos estavam bem tímidos. Começamos com um grupo só de nikkeis, mas hoje é aberto a todos”.
Segundo ele, a atividade já trouxe melhora na convivência, no físico, na coordenação e também benefícios para a mente. “Com tantas pessoas diferentes, estamos sempre nos atualizando dos mais variados assuntos. A dança nos proporciona melhoras em diversos aspectos da vida”, diz Yamaguti.
O grupo se reúne todos os sábados, das 14 às 17 horas na Rua Serra da Pedra Selada, 73.     

Diferentes histórias, um só resultado

                                                                             Arquivo pessoal

Ângelo Gote e sua Nega Maluca: paixão pela dança

O motivo pelo qual começaram a dançar são inúmeros: curiosidade, volta ao passado, vontade de fazer algo novo. Mas os benefícios provocados pela nova movimentação do corpo são sentidos por todos. Ângelo Gote, comerciante aposentado de 78 anos, procurou a dança depois de ver uma amiga se apresentando. “Achei muito bonito e logo em seguida procurei um grupo de dança”, conta.
A paixão pelos movimentos foi tamanha que Gote, além da dança de salão, acabou fazendo também apresentações com uma boneca, a “Nega Maluca”. “As pessoas acham diferente, isso é legal. E na hora da apresentação, danço o que vier na cabeça, não fico ensaiando com a boneca. Para mim, a dança melhora o físico e a mente”.
Para Satia Chimizu Tanaka, 73 anos, a dança proporciona relembrar momentos marcantes da juventude e também um modo de reviver um antigo sonho. Quando era moça, Satia dançava tango, mas teve que parar assim que casou. Foram 50 anos sem sentir a emoção de dançar. “Fomos educadas a fazer tudo o que marido quisesse e por isso, durante a maior parte da minha vida, deixei de fazer o que mais gostava”. Hoje, viúva, a aposentada, com o apoio dos filhos, voltou a dançar. “A sensação de voltar a dançar é maravilhosa. Eu simplesmente voltei a viver”, diz.
Já o engenheiro aposentado Júlio Noboru Takahashi, 59 anos, começou a se interessar pela dança por um motivo que não lhe agradava muito. “Eu via minha esposa dançando e ficava chateado de não acompanhá-la, já que não sabia. A saída, então, foi aprender”, conta. E, com a dança, Takahashi diz que aprendeu muito. “Dançar é uma terapia. Melhora a saúde, o corpo e a mente. Além disso, esse grupo é muito unido, a amizade é muito importante. Vendo as pessoas mais velhas dançando me inspiro a continuar até quando der”, diz.
Issamu Kimura é a inspiração para o resto do grupo. Aos 90 anos é o mais velho da turma, mas não o menos animado. Nem o tiro que levou na clavícula, em 1983, o que prejudicou os movimentos do braço esquerdo, o impede de dançar. “A turma é muito boa e gosto da dança, principalmente forró e vanerão. Só não participo do bon odori por causa do braço. Mas em vez de ficar em casa, venho dançar. Conhecer pessoas e mexer o corpo melhora a saúde e a vida”, completa.