| ESTRANHO SILÊNCIO DO JAPÃO |
| Qua, 16 de Maio de 2012 11:50 |
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Crônicas Nikkei
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*Toshio Icizuca
Eu leio o “Estadão” diariamente, um hábito que cultuo há mais de trinta anos. Em outras palavras, me informo das novidades do mundo, como notícias do cotidiano e acontecimentos na área científica e tecnológica, através do jornal. Mesmo assim não deixo de ver noticiários de televisão, principalmente de canais à cabo.
Hoje em dia fala-se muito no desenvolvimento dos países do leste da Ásia, onde o Japão se situa. Entretanto, estranhamente o Japão não tem frequentado as páginas dos jornais nem de noticiários de televisão com notícias na área de tecnologia, diferentemente de países como a Coréia do Sul, China e Taiwan.
É notório que o Japão tem passado por crises na economia mais do que os países citados, além de sofrer terríveis danos com o tsunami provocado por um abalo sísmico ocorrido há pouco mais de um ano. Com relação a esta catástrofe, as notícias são alvissareiras, o país está se superando rapidamente graças ao apoio do povo e com as medidas adotadas pelo governo. Outra coisa, o país que passou alguns anos em período de estagnação ou recessão, começou a retomar o crescimento, embora com índices pequenos em relação aos seus vizinhos.
Entretanto, o longo período de silêncio do país, sem revelar grandes novidades na área de criação tecnológica, fato não muito comum em se tratando de país altamente desenvolvido, me incomoda. Acredito que não seja por falta de capacidade dos cientistas e técnicos da área de pesquisa e desenvolvimento, mais conhecido como P&D, onde os países do primeiro mundo se destacam, e o Japão foi líder na década de setenta a oitenta. Só posso acreditar que o problema seja mesmo a falta de investimento nesse setor em função da crise econômica.
Não sou nenhum visionário, porém, se eu conheço um pouco do povo japonês, dentro de alguns anos o mundo voltará os olhos e ouvidos ao Japão. As surpresas estão certamente em desenvolvimento, na surdina, sem despertar a atenção do mundo, mormente dos países vizinhos.
A minha previsão está baseada em fatos passados, quando o país surpreendeu o mundo com a moderna indústria relojoeira superando o famoso concorrente, ou na área de máquinas fotográficas com lançamentos de marcas imbatíveis no mercado, ou ainda na fabricação de automóveis quando ultrapassou o maior concorrente que era os EUA.
Espero que o silêncio seja temporário pelos motivos citados, e que o país volte a brilhar no cenário tecnológico mundial.
* Toshio Icizuca é engenheiro, escritor, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. |
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| Pão com Mortadela |
| Seg, 23 de Abril de 2012 15:40 |
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Crônicas Nikkei
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*Toshio Icizuca
Um dia desses, na minha casa, estava fazendo o lanche da tarde um tanto inusitado, ou seja, comendo pão com mortadela e bebendo cerveja. Não seria estranho se estivesse comendo esse tipo de sanduíche acompanhado de refrigerante ou café com leite, ou até café puro. Aliás, a minha preferência seria com café puro com açúcar, nada de adoçante artificial. Felizmente ainda não necessito fazer uso desses produtos cujo efeito tenho muitas dúvidas. Digo isto porque, por achar que evitando o açúcar certamente evitaria o surgimento de diabetes, me dei mal. Depois de alguns meses de uso por minha conta, o efeito colateral foi terrível, e passei alguns meses me restabelecendo com superalimentação, consumindo açúcar, evidentemente...
Mas, voltando ao lanche do início, lembrei-me de fatos que eram comuns na comunidade japonesa de Tyuoku, em Londrina, onde eu morava. Na década de quarenta a cinquenta, fazer lanche comendo pão com mortadela e beber cerveja era fato corriqueiro após o encerramento de um trabalho no gakko, local de reunião da comunidade. Na época, tenho a impressão de que só existiam dois tipos de sanduíches: com queijo ou com mortadela. Não sei se era por questão de resistência ao calor, uma vez que não existia a geladeira, o sanduíche era sempre de mortadela, embutido encontrado em qualquer vendinha, mesmo da zona rural. Como o pão francês não existia naquele tempo, o jeito era cortar o pão sovado ou o filão, cujo nome dado na época não me vem à memória. Vocês não imaginam como era gostoso saborear o lanche depois de “dar duro” na preparação para o undookai, gakugueikai, ou a sessão de cinema ambulante.
Falando em lanche, me veio à mente um sanduíche que dava água na boca quando estava no grupo escolar, na década de quarenta. Muitos colegas de classe levavam sanduíche de ovo frito. Eu não levava nada, pois almoçava antes das dez horas e ia à escola, distante cinco quilômetros. As aulas começavam às onze e terminavam às quatorze horas. Horário estranho, mas era assim naquela época, porque havia três turnos de aulas. Até hoje, ainda dá vontade de comer um sanduíche de ovo...
O lanche de ovo não era típico dos imigrantes japoneses, porém, o de mortadela ficou marcado como sanduíche típico da colônia. Por incrível que pareça, ainda hoje, nas confraternizações após o fim dos jogos de beisebol de veteranos, esse tipo de sanduíche é servido. Acho que é para matar a saudade...
*Toshio Icizuca é engenheiro, escritor e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. |
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| Conversando com as Frutas |
| Sex, 20 de Abril de 2012 10:21 |
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Crônicas Nikkei
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*Toshio Icizuca
Sabemos que existem seres vivos além dos humanos, como animais, plantas e micro-organismos que, direta ou indiretamente, interagem com os seres considerados racionais. Nem todos os humanos têm a sensibilidade de perceber que existe esta troca de energia e acabam desprezando ou ignorando a existência destes organismos que fazem parte da nossa vida.
Os casos de mau trato de animais domésticos fartamente noticiados pela imprensa, assim como o desmatamento desordenado de florestas, ou a pesca predatória são exemplos da insensibilidade de alguns seres humanos, se é que assim podem ser chamados.
Conversar com os animais domésticos, ou com os animais confinados em zoológicos como se fossem seres que conseguem se comunicar com os humanos não têm nada de estranho, e muitas pessoas têm este tipo de comportamento. Entretanto, conversar ou fazer trocas de energia com as plantas não é tão comum. Dizem que os japoneses conseguem obter produtos agrícolas de qualidade porque eles conversam com as plantas e com a terra que fornece parte da energia e nutrientes para que elas possam crescer com vigor. Não sei se esse dito popular tem fundamento, mas, quando era criança e morava no sítio, em Londrina, por diversas vezes vi meu pai em atitude estranha, como se estivesse conversando com as plantas.
Um dia desses, quando peguei uma manga da fruteira para comer, minha mulher ficou me observando sem que eu soubesse e falou: você apanhou-a com delicadeza e ficou alisando-a e cheirando-a como se estivesse conversando com a fruta. Eu respondi: de fato, instintivamente, talvez tenha feito isso. E completei dizendo que quem já morou no sítio, trabalhou na lavoura, colheu café, arroz, feijão, soja, e cultivou plantas frutíferas, sabe como é trabalhoso colher uma fruta saborosa. Por isso, mesmo vendo-a no pé, na bancada do varejão ou em uma fruteira, sinto que ela faz parte da nossa vida, que alguém dedicou parte da existência, conversando com ela ou não, para obter aquele fruto. Ao pegá-la, senti que o coração não resistiu e fez com que eu fizesse um carinho e sentisse o aroma característico da manga. Ao ouvir com atenção as minhas explicações, a minha mulher falou que já viu outras pessoas fazerem o mesmo.
Depois desse diálogo tenho certeza que meu pai, um imigrante que viveu mais de cinquenta anos em Londrina lidando com as plantas, realmente conversava com elas até dar o adeus, contra a vontade, pois teve que se desfazer do sítio, uma vez que a cidade estava avançando e engolia os pequenos sitiantes.
*Toshio Icizuca é engenheiro, escritor, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. |
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| IDADE E GOSTO MUSICAL |
| Seg, 09 de Abril de 2012 13:51 |
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Crônicas Nikkei
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| Toshio Icizuca
Alguém disse que pelo gosto musical de uma pessoa consegue-se dizer mais ou menos a idade que ela tem. Ou seja, associando-se o sucesso musical de uma determinada época com as músicas preferidas de uma pessoa, pode-se chegar ao período em que ela as curtiu quando jovem, uma fase da vida em que começam a se apaixonar e guardar muitas lembranças, e as músicas sempre fazem parte desses momentos.
Esse assunto surgiu quando eu estava ouvindo músicas antigas no som do computador, e a minha mulher fazia comentários a respeito da época em que eram tocadas e o nome das pessoas que adoravam tais músicas, mormente trilhas sonoras de filmes estrangeiros.
Com as músicas japonesas também acontece o mesmo. Quem gosta de karaokê e costuma assistir concursos organizados pelas comunidades nikkeis devem ter notado essa semelhança. A cada gênero de música apresentam-se grupos de cantores para interpretá-la, e as faixas etárias variam. Por exemplo, os cantores da terceira idade preferem o enka, ou músicas do Japão antigo, enquanto os jovens gostam de cantar músicas da atualidade. Na minha infância aprendi a cantar músicas que meus pais aprenderam no Japão, como Moshi moshi kameyo kamesanyo, Miyotookai, gunkanmaachi, shirorijini akaku, entre outras. Quem conhece essas músicas está na faixa de sessenta a setenta anos, ou mais. Acredito que os nikkeis de hoje nem ouviram falar, muito menos cantaram essas músicas.
A minha geração quando jovem gostava da saudosa Missora Hibari. Na época, eu morava em São Paulo, e não perdia um filme em que ela era a protagonista. Foi no período em que o Cine Niterói, da Rua Galvão Bueno, estava no auge. Quem se lembra disso sabe em que época vivi a minha juventude. Aliás, que época! Tenho muita saudade de São Paulo nesse período, quando a cidade era conhecida como “São Paulo da garoa”.
Hoje, como autêntico saudosista gosto de enka e músicas clássicas de modo geral. A coleção de músicas que eu ouvia e que foi a causadora dessa crônica está salva no meu arquivo e, quando a saudade aperta, ouço-a em devaneio. Só que desta vez foi diferente, porém, mais proveitosa e inspiradora... Se as músicas forem do gênero enka, a inspiração vem da letra da canção, geralmente nostálgica e triste...
Depois de escancarar os meus gostos musicais, acredito que os leitores já descobriram o meu “DNA”, ou seja, “Data de Nascimento Antigo”.
*Toshio Icizuca é engenheiro, escritor, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. |
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| LONDRINENSE EM PIRACICABA |
| Ter, 03 de Abril de 2012 10:53 |
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Crônicas Nikkei
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*Toshio Icizuca
Como os leitores sabem, sou londrinense de nascimento, mas moro atualmente em Piracicaba por acaso, porque não escolhi esta cidade para ser o meu local de trabalho.
Em 1980, quando decidi sair de São Paulo por uma série de razões, depois de morar na “Terra da Garoa” durante 28 anos, não tinha a mínima noção de onde seria a cidade que iria me receber como forasteiro. A empresa onde eu iria trabalhar não poderia ser da Grande São Paulo, teria que ser uma cidade média, até de outro estado, inclusive Paraná. Nesse caso teria que ser Londrina.
A empresa que me contratou através da Catho, especializada em recursos humanos, por acaso ficava em Piracicaba, cidade que eu conhecia apenas pelo nome, mais conhecida pelo rio que corta a cidade, e mais ainda devido ao famoso salto onde ocorria a piracema. E no campo esportivo, o destaque era o glorioso “XV de Piracicaba”, o “Nhô-Quim” de tantas histórias em futebol e basquete.
Com a cara e a coragem fixei residência nesta cidade com a minha família. Não conhecia nenhum morador. Os primeiros a ter contato eram companheiros de trabalho que, por sinal, me receberam com muita frieza, pois viera a ocupar a vaga cujo pretendente era um engenheiro “da casa”, muito querido por seus pares.
Apesar deste imprevisto degradável, fazia esforço para me sentir à vontade no emprego e procurava me adaptar à cidade cujo epíteto era “Noiva da Colina”. Passei a assinar o jornal de maior circulação na cidade para me inteirar dos acontecimentos e conhecer os nomes das autoridades e figuras da sociedade piracicabana.
Depois de seis anos, embora não frequentasse nenhum clube social, e nem fizesse parte sequer de alguma entidade, comecei a escrever com bastante frequência artigos para o jornal que eu assinava. Escrevia sobre diversos assuntos, desde política, economia, segurança, trânsito, esporte, e o cotidiano da cidade. Isto me levou a ser conhecido na cidade, pelo menos de nome. Convites para fazer parte de diversas entidades começaram a pipocar, inclusive do Clube Nipo, em fins de 1987, onde reiniciei a prática do beisebol, aos 51 anos de idade.
Em 1994, quando estava me aposentando, aceitei o convite do então Prefeito para ser o Secretário de Trânsito e Transportes e, na gestão seguinte, assumi a Secretaria do Meio Ambiente.
Hoje, me considero cidadão piracicabano, gosto da cidade, e tenho certeza de que tenho muitos amigos e admiradores que construí ao longo dos 25 anos de atividade, como articulista de jornais e participação ativa em entidades culturais, associativas e de serviço.
*Toshio Icizuca é engenheiro, escritor, e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba. |
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