| Os dekasseguis e a crise mundial | ||||
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Denise Somera O que está acontecendo entre os brasileiros que estão no Japão e quais são as perspectivas ![]() Miike: “ABD estará aqui para atender quem retornar, ajudar nos primeiros passos no Brasil” Embora o final do ano chegue acompanhado de sentimentos de esperança, para muitos nikkeis, 2009 começa cheio de receios. O Japão entrou em recessão a partir da crise econômica desencadeada nos Estados Unidos e com expectativa de sair dela só depois de 2010. Desta maneira, muitos dekasseguis, tanto brasileiros quanto estrangeiros, estão sem perspectiva. E pior, sem emprego: empreiteiras, que costumam empregar os brasileiros, estão demitindo funcionários semanalmente, sem chances de novas contratações. “Esta atual crise pode ser comparada com a crise dos ‘tigres asiáticos’ de 1998, em que o Japão também anunciou recessão”, diz Kiyoharu Miike, presidente da Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD). Naquela época, é certo que aproximadamente 50 mil brasileiros retornaram do Japão, já que o trabalho por lá ficou escasso. Dez anos depois, outra crise: o maior parceiro comercial do Japão pára de comprar e ainda, de forma inesperada. De uma hora para outra, praticamente, os Estados Unidos noticiou sua crise, pegando o Japão de surpresa. “Na outra crise, por volta de 1996 já começamos a ouvir rumores e, no ano seguinte, já estava anunciado algum problema, já que muitos trabalhadores passaram a fazer ‘bicos’ para conseguir dinheiro. Quando a recessão chegou de fato, já estávamos preparados. Desta vez, não”, conta Nelson Kenji Kawai, ex-dekassegui que permaneceu por 23 anos no Japão. Situação hoje – A crise desta vez é considerada diferente. Ter o japonês como segunda língua já não é um diferencial entre os trabalhadores brasileiros. “Antes, quem falava e escrevia em japonês tinha um emprego garantido. Agora, a situação está tão difícil que nem para japonês se tem emprego mais”, ilustra Kawai, que tem um filho, uma nora e duas netas no Japão. Segundo ele, a situação para os brasileiros que estão do outro lado do mundo não está fácil. Meios de comunicação já anunciam que existem brasileiros morando nas ruas do Japão e também se alimentando com as sopas distribuídas aos mendigos do país. “Como o custo de vida lá é alto e as pessoas moram em apartamentos mantidos pelas empreiteiras, foram despejados e agora não têm pra onde ir”, lamenta o ex-dekassegui, que teme pelo futuro do filho. “Ele está sobrevivendo lá através da ajuda de amigos. No período que fiquei no Japão, fiz muita amizade e são estes relacionamentos que estão o mantendo lá, pois está sem emprego, assim como sua esposa”, conta Kawai. Com a produção chamada de “just in time” (produção por demanda), a parada produtiva do Japão foi imediata ao anúncio de quebra da economia americana. Como o governo dos EUA demorou para detectar e anunciar a crise, o Japão, um dos principais parceiros comerciais, foi pego “de surpresa”. “Sabíamos que há anos os dekasseguis estavam tendo uma renda menor do que em outras épocas, porém, ainda dava para se manter no Japão e viver. Agora, temos ajudar no que for preciso, embora esta situação seja de uma dimensão maior do que podemos lidar e nosso trabalho é quase como ‘enxugar gelo’ “, diz Miike. Para este final de ano, é esperada uma debandada de brasileiros retornando do Japão, sem perspectiva de voltar para o país empregado. “Em muitas situações, as empreiteiras estão pagando para o retorno de seus ex-funcionários ao Brasil, para não agravar ainda mais a situação deles por lá”, conta Nelson Kawai. Ele teme que a criminalidade aumente, já que as pessoas passarão por situações extremas de não terem comida nem local adequado para morar. “Sem contar que existem famílias no Japão e as necessidades de uma criança são imediatas”, argumenta. Distância - A situação se agrava para os brasileiros devido à distância entre os dois países. Enquanto os dekasseguis vindos da Ásia (China, Indonésia, Coréia, etc) estão a algumas horas de sua terra natal – e retornar para ela é mais fácil – os brasileiros estão a mais de 24 horas de viagem do seu país, com passagens caras e quase impossíveis de serem compradas agora, em cima da hora. “Quando vão procurar emprego, o que mais se escuta é ‘estamos mandando gente embora e não contratando’, o que vai deixando todos desesperados diante da falta de oferta”, lamenta Kawai, que recebe notícias semanais do filho que está no Japão. O ano que começa será de repensar nos planos, segurar os gastos e esperar a tempestade passar. “A ABD estará aqui para atender quem retornar, ajudar nos primeiros passos no Brasil e estamos pensando num shinenkai em março, para reunir os ex-dekasseguis”, avisa Miike.
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