Tokiko Ajimura de 93 anos, ainda recebe os clientes no balcão, faz cálculos e não pretende parar tão cedo. O trabalho é uma terapia e contribui para a saúde de dona Tokiko que, segundo seu filho, recebe os amigos, dá risadas, e não vê o tempo passar.
Vida e negócios que resistem ao tempo
A história de Tokiko Ajimura, de 93 anos, se confunde com o bazar, que leva o seu sobrenome. Estabelecimento está aberto há mais de 60 anos

“Nasci para trabalhar, e enquanto tiver condição vou continuar
Mayhara Nogueira
Por trás do corpo diminuto de dona Tokiko Ajimura de 93 anos, a fala baixa e o rosto marcado pelo tempo, se esconde uma mulher ágil com números e disposta a longas horas de trabalho. O que parece um serviço tortuoso para uma pessoa de sua idade, para ela é um dos segredos de sua longevidade e também da conservação do pioneiro bazar Ajimura, que se mantém em atividade há mais de seis décadas.
Nascida no Japão, na província de Imaguchi, Tokiko veio com os seus pais para o Brasil com 11 anos. A mudança se deu após os negócios da família no ramo alimentício terem sucumbido, segundo ela, à má administração do seu pai. “Éramos bem sucedidos, mas meu pai não teve pé no chão”, afirma .
Casada com Massaji Ajimura e mãe de seis filhos, entre eles quatro mulheres e dois homens, Tokiko veio para Londrina na década de 1940, após anos de experiência em fazendas de café no interior de São Paulo. “Como tínhamos várias mulheres na família, meu pai decidiu abrir um bazar, considerando um negócio próprio para o sexo feminino”, conta Tadamassa Ajimura, filho mais velho de Tokiko, hoje à frente dos negócios da família.
Entre palavras em nihongô traduzidas para o português pelo filho, Tokiko conta que o bazar, ainda conservado com suas estantes de madeira pesada e produtos tradicionais, foi aberto em 1948, como um espaço especializado em produtos de aviamento.
Ela lembra do tempo em que a rua Sergipe, ainda sem asfalto, era onde se concentrava o comércio nikkei da cidade. “Parecia a praça da Liberdade em São Paulo, cheia de lojas de imigrante”, recorda Tokiko. “Apesar da terra vermelha encobrir as vitrines, que eram limpadas a cada cinco minutos, o comércio era sempre movimentado”, lembra
De lá pra cá, a economia mudou bastante, e apesar do volume de compradores ter caído ao longo das décadas, Tadamassa afirma que o que os mantém firme nos negócios até hoje é o carinho e fidelidade dos descendentes. “Hoje os nossos clientes são os netos e bisnetos daqueles que compravam com a gente”, lembra.
Porém, o que impressiona mais do que a conservação do bazar Ajimura, é ver a vitalidade de dona Tokiko. Muito disciplinada e determinada, a imigrante ainda atende os clientes no balcão, faz cálculos e conta dinheiro, todos os dias, e de acordo com ela, não pretende parar tão cedo. “Nasci para trabalhar, e enquanto tiver condição vou continuar”, diz.
Segundo Tadamassa, o trabalho para a mãe é uma terapia e contribui para a sua saúde. “Aqui ela conversa com os amigos, dá risada, não vê o tempo passar”, afirma ele, que comenta sobre outros segredos que garantem a sua longevidade. “Sei que a minha mãe é disciplinada, come missoshiro e faz as suas orações duas vezes ao dia, e não dispensa uma novela coreana”, brinca.