Entre os Shisha e os Muertos: Japoneses, Mexicanos e a Morte
Sáb, 08 de Agosto de 2009 10:40    PDF Imprimir E-mail
Colunista - Richard Gonçalves André

Richard Gonçalves André
Ana Raquel Abelha Cavenaghi

No dizer do folclorista brasileiro Luís da Camara Cascudo, a “História dos Mortos é feita pelos Vivos”. De fato, os mortos permanecem em silêncio, sendo antes os viventes que produzem representações em torno do “além”. Contudo, se algumas culturas os “rejeitam”, outras atribuem papel significativo à influência daqueles que partiram, como é o caso do Japão e do México. Neste artigo, será lançado um olhar comparativo em torno de suas visões do mórbido.
De acordo com George B. Sansom (1883 – 1965), no Japão os mortos (shisha) “não estariam mortos”, na medida em que governariam o destino dos vivos. Segundo a piedade filial, doutrina apropriada pelos japoneses do pensamento confucionista, a sociedade deveria ser estruturada a partir da reverência incondicional dos filhos perante os pais. Tseng Tzu, discípulo de Confúcio, prescrevia que se conduzisse “os funerais dos pais com esmero”, não deixando que os “sacrifícios aos remotos ancestrais sejam esquecidos”.
Após o funeral, lembrando que a cremação é uma prática que remonta ao século XIX japonês, era necessário cumprir rituais budistas a cada sete dias, até que, no quadragésimo nono, o espírito instável e confuso (denominado rei ou yûrei) se tornasse de fato um ancestral (senzo). O ihai, tabuleta onde é gravado o nome póstumo e a data de falecimento do indivíduo, deveria ser inserido no butsudan, o relicário doméstico de caráter budista, sendo reverenciado diariamente por intermédio de oferendas (osonaemono), como frutas, água e saquê.
Todavia, em certas épocas do ano, a reverência aos mortos poderia se tornar mais intensa. Embora a data varie de acordo com a região do país, convencionou-se que, por volta do dia 15 de julho, ocorreria o obon, geralmente traduzido como o “Dia de Finados” nipônico. Entretanto, a tradução não permite entrever as profundas diferenças culturais: no Brasil, pelo menos do ponto de vista do Cristianismo, trata-se de recordar respeitosamente daqueles que partiram; no Japão, os espíritos retornariam temporariamente para o mundo dos vivos, devendo ser reverenciados.
Por isso, geralmente, limpa-se os túmulos familiares, o que também ocorre em território brasileiro, mas as práticas atingem a esfera doméstica, na medida em que os butsudan são adornados e neles são inseridas algumas iguarias. Além disso, no período, ocorre também o bon odori, a dança dedicada aos mortos com o intuito de elevá-los espiritualmente, recordando que, no imaginário budista, existiriam diversos círculos espirituais. O obon seria encerrado, em algumas regiões do Japão, com o tôrô nagashi, ocasião em que são confeccionados pequenos barcos com os nomes dos falecidos que, colocados em rios, simbolizariam o retorno dos senzo ao universo propriamente espiritual.
No caso mexicano, o Día de Muertos é uma celebração de origem indígena (por exemplo, derivada dos maias) que ocorre há três mil anos, sendo, portanto, anterior à chegada dos espanhóis no continente americano. Nesse período era comum a prática de conservar os crânios como troféus e mostrá-los durante os rituais que simbolizavam a morte e o renascimento. Era comemorado no início de agosto e celebrado durante um mês completo, com festividades presididas pela deusa Mictecacíhuatl, conhecida como “Dama da Morte”. Essas festividades eram dedicadas a crianças e parentes falecidos.
Para os mexicanos que viviam nessa época, a morte não tinha as conotações morais da religião católica, em que as ideias de inferno e paraíso servem para castigar ou premiar. Ao contrário, acreditavam que os rumos das almas dos mortos estavam determinados pelo tipo de morte que tiveram, e não pelo seu comportamento em vida. Porém, quando os espanhóis chegaram à América no século XV, tentaram converter os nativos ao Catolicismo, fazendo as festividades dos mortos coincidirem com os ritos católicos do dia 2 de novembro, conhecido no Brasil como Dia de Finados.
Dessa forma, os costumes dos mexicanos nativos se misturaram aos dos espanhóis criando um sincretismo religioso, dando lugar ao atual Día de Muertos. Esse dia é marcado por oferendas levadas ao túmulo da pessoa falecida e aos altares domésticos. Dentre as oferendas mais comuns, podem-se ressaltar o retrato da pessoa falecida (para que possa visitar os entes queridos), doces círios (em pares, formando uma cruz em forma de pontos cardeais para guiar a alma com o intuito de encontrar seu caminho), crisântemos amarelos (que simbolizam a luz do sol guiando a alma até sua casa), cruz de terra (simboliza a transformação do falecido em pó), coroas de flores, velas, pães com formatos em diferentes figuras, alimentos que a pessoa falecida gostava em vida, bem como objetos pessoais e brinquedos quando a pessoa morreu ainda criança.
Apesar do Japão e do México não serem os únicos países que possuam o culto aos mortos em seu legado cultural, as semelhanças não deixam de ser notáveis. Em ambas as culturas, não obstante os fundamentos religiosos sejam diferentes, acredita-se que os mortos retornam ao mundo dos vivos, não estando a barreira entre as duas dimensões absolutamente separadas. Entre japoneses e mexicanos, os espíritos devem ser reverenciados por intermédio de oferendas, embora os últimos as insiram, também, nas sepulturas (algo que os nikkeis passaram a realizar também no Brasil, especialmente no Dia de Finados, embora a prática inexista no próprio Japão). Além disso, os mortos são recebidos com singular animosidade, desde os movimentos suaves do bon odori às festividades do Día de Muertos. Uma diferença, no entanto, seria o caráter comicamente macabro presente entre os mexicanos, na medida em que os mortos são representados como caveiras (herança tanto das tradições indígenas locais quanto das representações mórbidas européias). Entretanto, a estrutura dos rituais permanece basicamente a mesma.
Mesmo com as semelhanças, inexistem evidências de que japoneses e mexicanos compartilhem de origem culturais comuns. No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, é provável que algumas das representações e práticas mórbidas presentes em ambos os países tenham entrado em contato por intermédio da imigração japonesa para o México. Ainda que, em termos quantitativos, a proporção de imigrantes nipônicos seja muito pequena quando comparada à do Brasil, o território mexicano começou a receber japoneses em decorrência da crise de mão-de-obra gerada pelo fim da escravidão.
Assim como no Brasil a religião nikkei apresentou caráter sincrético com o Cristianismo, como se pode verificar nos butsudan e túmulos em que símbolos budistas e cristãos se misturam, é possível que, percebendo as semelhanças estruturais entre o culto aos ancestrais e o Día de Muertos, os nikkeis no México tenham começado a fundir suas crenças e transformá-las num diferente produto cultural, criando uma inovadora convergência inexistente no próprio Japão. Cabe a pergunta sem resposta: como os nikkeis mexicanos comemoram o Día de Muertos?
A história das religiões é um campo sem limites de criatividade, especialmente quando se trata das diferentes culturais no que se relaciona à morte. Mesmo diante de barreiras espaciais e temporais, contudo, diversas sociedades apresentam semelhanças no modo de lidar com seus mortos, cujas histórias são sempre, retomando as palavras de Cascudo, contadas pelos vivos.