On: Relações de Reciprocidade no Japão
Sáb, 22 de Agosto de 2009 10:27    PDF Imprimir E-mail
Colunista - Richard Gonçalves André

Richard Gonçalves André

Em 1946, a antropóloga norte-americana Ruth Benedict publicou “O Crisântemo e a Espada”, livro que sintetiza suas análises em torno do comportamento dos japoneses. A pesquisa havia sido encomendada em 1944 pelo governo dos Estados Unidos com o objetivo de compreender a cultura nipônica com o objetivo de melhor dominá-la, lembrando que se tratava dos anos finais da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). A argumentação de Benedict fundamentava-se nas relações de reciprocidade no Japão, sintetizadas na expressão on.
Devido à situação de guerra, a autora teve de abrir mão de um dos principais instrumentos de análise antropológica: o trabalho de campo, lidando diretamente com a cultura à qual se deseja compreender. Como estratégia alternativa, realizou entrevistas com diversos nikkeis residentes nos Estados Unidos, consultou materiais impressos de diversas naturezas, desde obras históricas à romances, e analisou quantidade significativa de produções cinematográficas produzidas no Japão.
Apesar das adversidades presentes na investigação, a pesquisadora revelou na obra um dos trunfos teóricos da Antropologia (pelo menos aquele relativo a um de seus ramos, a Antropologia Cultural): lançar um olhar em torno dos aspectos culturais sobre os quais não se fala abertamente, mas que perpassam a vida cotidiana de determinada sociedade, ou seja, algo tão comum (o que não significa falta de importância) que geralmente não se percebe. É justamente a partir do procedimento que Benedict apercebe-se do on.
Nos dicionários, a palavra é definida, de modo geral, como “favor”, “obrigação” ou “débito de gratidão”, sentido que não é particularmente esclarecedor, uma vez que existem inúmeras outras expressões para tais significados. On refere-se à base fundamental das relações de reciprocidade japonesas, implicando que, a partir do recebimento de determinada ação por parte de outrem, boa ou má, contrai-se uma dívida de caráter moral que se deve pagar mais ou menos na mesma moeda. Assemelha-se, de certa forma, à troca de favores existente no Ocidente.
Todavia, o favor ocidental é (ou pelo menos deveria ser) uma atitude gratuita, à qual não se espera nada em troca. No Japão, subentende-se que o pagamento seja feito no devido valor. O indivíduo que não o paga é alvo de vergonha, sentimento que perpassa a vida nipônica de maneira intensa. No Ocidente, aquele que deve o on seria mais aproximado do devedor financeiro, o qual se encontra submetido a uma relação quase contratual: salda a dívida ou suja o nome. Entre japoneses, maximiza-se o débito à esfera moral.
De acordo com Benedict, existem basicamente duas ramificações do on. O primeiro seria o gimu que, nos dicionários, também é definido como “obrigação”. Contudo, possui o matiz de constituir uma dívida impagável, à qual o indivíduo se submete ao longo de toda sua vida sem jamais saldá-la. Deve-se essa espécie de on aos pais, lembrando que o Japão, desde cedo, apropriou a piedade filial confucionista segundo a qual os filhos deveriam fidelidade absoluta aos progenitores.
Seria preciso, no interior do imaginário nipônico, reverenciá-los vivos ou mortos (através do culto aos ancestrais realizado no butsudan, o relicário doméstico de caráter budista). Afinal, os pais concebem os filhos, educam-nos, alimentam-nos e abrigam-nos até que sejam capazes de caminhar com suas próprias pernas. Na velhice, os pais deveriam ser cuidados pelos filhos, em sinal da gratidão infindável implicada pelo gimu (daí vem a ideia do chônan, o filho mais velho, permanecer no lar zelando pelos pais, pelos ancestrais e pela propriedade).
Pelo menos até 1946, quando o imperador Hirohito declarou pelo rádio a rendição japonesa na guerra e sua não-divindade, o gimu era devido também ao soberano, porquanto fosse considerado um deus vivo (ikigami) ou manifestação divina (arahitogami). Portanto, seria o provedor de toda a existência, sendo o on a ele devido teoricamente infinito. A unidade organizacional japonesa era a família, sendo que o Estado, por sua vez, era concebido como a maximização daquela, constituindo o imperador o “pai” supremo da nação, devendo a ele aplicarem-se todos os deveres prescritos pela piedade filial. Por isso, sua figura era reverenciada no kamidana, o altar doméstico de caráter shintoísta, nas escolas e no exército.
Esse gimu justificou, durante o período da Segunda Guerra Mundial, uma série de atitudes inconcebíveis para um soldado ocidental que, diante da derrota, poderia render-se sem maiores constrangimentos. O soldado japonês, por sua vez, deveria sacrificar-se em nome do soberano, explicando-se a conduta dos pilotos kamikaze que morriam junto a seus aviões. Os soldados mortos eram convertidos em divindades (kami), mas os desertores eram considerados párias, sendo vítimas da vergonha socialmente atribuída.
A segunda ramificação do on é o giri. Diferentemente do gimu, constitui um débito finito e, portanto, pagável ainda em vida. É devido, por exemplo, aos patrões e professores que, em determinado momento da vida, concedem ao indivíduo determinados benefícios que o tornam debitário. Caso necessitem de eventual auxílio, cabe ao devedor ajudá-los. Na sociedade tradicional, era possível verificar o giri nos velórios: a família enlutada recebia dos convivas o kôden, literalmente o “dinheiro para o incenso”, com o objetivo de auxiliar nos custos relacionados aos ritos fúnebres. Os familiares deveriam anotar a contribuição e, em devido tempo, retribuí-la de diferentes maneiras, enviando, entre outras formas, mochi àqueles que se prestaram no momento do luto.
Num primeiro golpe de vista, as relações em torno do on podem parecer “frias” e organizadas sobre uma moral de cunho econômico. Contudo, tratam-se de comportamentos longamente enraizados na cultura nipônica e que, por isso, deixam de ser notados (sendo por isso mesmo importantes). No Japão, o on guarda a profunda lição de que o indivíduo, no Ocidente considerado livre de qualquer débito, nunca está realmente sozinho, mas amparado por uma série de pessoas, visíveis ou invisíveis, vivas ou que já partiram. Por que não refletir?