Limpando as Anátemas do Nome: a Vingança no Japão Tradicional
Sáb, 05 de Setembro de 2009 13:14    PDF Imprimir E-mail
Colunista - Richard Gonçalves André

Richard Gonçalves André

Numa das reflexões lapidares de “Kill Bill” (2003), filme dirigido por Quentin Tarantino, o forjador de espadas Hattori Hanzô (interpretado por Sonny Chiba), afirma que a vingança seria como uma floresta fácil de entrar mas difícil de sair. Apesar das apropriações feitas pelo diretor de elementos da cultura nipônica, aliás de forma deliberadamente criativa, não haveria nada de mais contrário em relação ao ato de vingar-se na sociedade samuráica japonesa, que estaria entre as virtudes do homem.
No artigo da quinzena anterior, argumentei acerca das implicações em torno do on, isto é, o dever de reciprocidade em relação às ações recebidas, que deveriam ser pagas na mesma moeda, maximizando o raciocínio monetário à moral. Entretanto, não apenas os benefícios deveriam ser retribuídos, como também os malefícios, que poderiam assumir diversas formas, incluindo-se a vingança que, no interior do on, seria moralmente aceita.
Não obstante o tom orientalista, para não dizer japonista, da reflexão do Hanzô de Tarantino, o ato de vingar-se era considerado prática virtuosa, desde que implicasse “retribuição” a dano recebido. Nitobe Inazô (1862 – 1933), político cristão durante a Era Meiji (1868 – 1912), afirmava, por exemplo, que na “vingança existe algo que satisfaz o sentido de justiça de cada um. O nosso sentido de vingança é tão preciso quanto a nossa aptidão matemática e, até serem satisfeitos os dois termos da equação, não conseguimos evitar a sensação de algo deixado por fazer”. Mesmo sob a influência do Cristianismo, Nitobe não abandonou a verve vingativa do Japão samuráico.
O Japão, como bem apontou Ruth Benedict em “O Crisântemo e a Espada”, é uma sociedade cuja cultura é baseada na vergonha, ou pelo menos era até o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945, lembrando que o livro foi escrito em 1946). Era necessário manter o indivíduo imaculado do anátema lançado pela sociedade. Uma das formas de manter o nome limpo, obviamente, era pagar o on: seja o gimu, as obrigações impagáveis em relação aos pais ou ao imperador, ou o giri, as responsabilidades para com o mundo. Esquivar-se dessas regras de reciprocidade exporia a pessoa ao absurdo, ao indizível: representaria quebrar as regras do jogo social, isto é, aquelas que ninguém fala, mas que todo mundo sabe o que é. Algo como um bispo no tabuleiro de xadrez fazendo o movimento do cavalo, o que, em linguagem chula, não pega bem.
Porém, em certas ocasiões, pagar o on implicava atitudes mais violentas, seja em relação aos outros, seja no tocante a si próprio. Uma calúnia infundada (aliás, como são todas as calúnias, com o perdão da redundância) representaria um on negativo que não poderia ser ignorado. Através de múltiplas formas, a vingança constituiria meio lícito para saldar a dívida, mesmo que demorasse anos para ser de fato realizada. Se a vingança é um prato que se come frio, de acordo com o ditado ocidental, no caso dos japoneses poderia literalmente congelar.
A ficção nipônica está literalmente perpassada da questão. “Zatoichi” (2003, dirigido por Takeshi Kitano), obra constantemente refilmada na história do cinema japonês, é um exemplo: um casal de irmãos espera anos para se vingar de um mafioso que matou sua família. Para chegarem até aí, ambos disfarçaram-se de gueixas que, sob os movimentos suaves e som de shamisen, carregam a latente intenção vingativa. Os mangás e animês, por sua vez, são pratos cheios: já se tornou clichê pisado e repisado haver personagens como um Sasuke (“mataram meu clã!”) e um Vegeta (“pisaram no meu calo de príncipe guerreiro!”) sedentos por cumprirem seus objetivos e rirem seus estereotipados risinhos de antagonistas.
Ficção à parte, a história nipônica também é repleta de exemplos, principalmente no tenso universo samuráico. On era sempre um bom motivo, dentro dessa cultura, para testar se a katana estava ou não enferrujada. O substituto de shôgun Ii Naosuke, também chamado Ii Kammon, alguns anos antes da Era Meiji, era compreendido pelos partidários do imperador como o traidor que teria vendido o Japão aos ocidentais por intermédio de tratados.
Sua atitude representava uma quebra de decoro para com o imperador, motivo que gerou burburinho entre os opositores. Acabou morto durante uma emboscada por parte de homens pertencentes ao han de Mito. O daimyô de Mito, anos depois, foi assassinado pelos subordinados inconformados de Naosuke, tingindo a nascente Era Meiji de vermelho carmesim. O chamado período do “terror” que sucedeu a Revolução Francesa teria sido apenas um passeio no parque do ponto de vista dos japoneses tradicionais.
Mas limpar o nome poderia, também, ter um significado de violência contra si próprio no Japão samuráico. Tradicionalmente, fazer o harakiri ou seppuku (o suicídio ritual em que o ventre era cortado com a espada curta) era forma de manter a honra através da morte (apesar de não se tratar de morte visualmente bela, já que as entranhas costumavam cair diante do suplicante). A calúnia que eventualmente resultava em vingança poderia, em outros contextos, acabar em harakiri. Em “Brother” (2000, dirigido por Takeshi Kitano, mais uma vez), ao ser caluniado por outro yakuza diante do chefe, o ofendido sem hesitação abre a camisa, finca a espada no ventre com o olhar fixo no caluniador. Não obstante sua morte, a situação se reverteu para este, que se sentiu impelido (sem a ordem de ninguém) a cortar um dedo como manifestação de arrependimento.
Em suma, tradicionalmente a vingança, desde que inserida dentro das relações do on, era considerada virtude. Fora dele, seria meramente violência gratuita. Trata-se de outro universo cultural, portanto irredutível à cultura ocidental. A distância que separa o Japão samuráico do moderno país dos robôs é de fato enorme, ainda que certos traços ainda sobrevivam nos risinhos sórdidos (“fu, fu, fu”, segundo as onomatopéias dos mangás) dos orgulhosos antagonistas.