| Sumo: a Batalha Entre um Homem e um Kami | ||||
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| Colunista - Richard Gonçalves André | |||
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Richard Gonçalves André Até o fim de sua vida, lembro-me de minha avó sentada no sofá, empolgadíssima, assistindo um dos principais atrativos transmitidos pela prestigiada emissora japonesa NHK, enquanto minha mãe lamentava: “sumo de novo, não!”. O que poderia parecer uma luta sem regras entre dois obesos usando tangas constituía, para minha avó, japonesa de primeira geração, uma demonstração de técnica e fonte de entusiasmo, fazendo-a, inclusive, bater palmas solitariamente diante da TV. O sumo é uma das mais populares e antigas lutas japonesas, embora sua datação seja historicamente imprecisa, mobilizando uma legião de fãs, homens e mulheres de todas as idades, dentro ou fora do Japão. Trata-se de uma contenda na qual os lutadores, denominados sumotori, em uma arena circular chamada dohyo, buscam derrotar o adversário através de dois procedimentos: empurrá-lo para fora dos limites da arena ou jogá-lo no chão, de modo que aquele que tocar o solo por alguma parte do corpo que não seja os pés é derrotado. O resultado do embate é anunciado por um juiz trajado semelhantemente a um sacerdote shintoísta, o que não é coincidência, como será visto mais adiante. Como vestimenta, os lutadores utilizam o mawashi, uma espécie de faixa de tecido grosso enrolada e amarrada ao quadril, a dita “tanguinha” segundo os telespectadores mais desavisados. Antes da contenda, os sumotori usam o kesho mawashi, traje de caráter mais formal e elaborado, embora na Era Edo (1603 – 1868) constituísse a verdadeira roupa de combate. Principalmente no Ocidente, de modo geral o sumo é visto com certo preconceito, derivado por sua vez de impressões simplistas. Primeiramente, seria uma luta de homens obesos. De fato, talvez a grande maioria de sumotori que participam dos campeonatos japoneses seja de compleição física extremamente robusta. Inclusive suas refeições são generosamente fartas (e com o perdão do jogo bobo de palavras, não “falta” nada). Entretanto, o peso não constitui fator fundamental na luta. Diferentemente do boxe, por exemplo, não existem classificações baseadas no peso, como “peso pena” e “peso pesado”. Prova disso é que um lutador pode se bater no dohyo com alguém com massa corpórea bem maior que a sua: ou seja, o que define a vitória não são necessariamente quilos a mais, mas a técnica, fator sobre o qual falarei mais abaixo. As divisões hierárquicas, que não poderiam deixar de faltar num dos mais tradicionais frutos da cultura nipônica, são fundamentadas na performance, número de vitórias e derrotas. Da base para o topo, há o grupo dos jonikuchi, jonidan, sandanme, makushita, jûryo e, por fim, dos makuuchi. Em cada escala, há subdivisões: no interior da última, o grau mais alto seria conferido ao yokozuna, atualmente ocupado por dois mongóis, Asashoôryu e Hakuho. Em segundo lugar, do ponto de vista uma vez mais do telespectador desavisado, o sumo poderia parecer uma luta sem regras ou técnicas em que os dois sumotori apenas se empurrariam freneticamente, algo como uma briga de galo na qual se ganha do jeito que dá. No entanto, assim como o bom apreciador do vinho conhece as sutilezas da bebida, o fã de sumo sabe identificar os golpes utilizados pelos lutadores. Ao que tudo indica, haveria mais de cem técnicas diferentes, dentre as quais seria possível citar o kata sukashi, em que o adversário é lançado ao chão empurrando-o pelos ombros, e o hataki komi, no qual se utiliza o próprio impulso do rival para derrubá-lo. Isto é, a vitória nem sempre é definida pela força ou pelo peso, como sugerido anteriormente, mas pela devida canalização da energia utilizada pelo adversário. Outra possibilidade seria agarrá-lo pelas bordas do mawashi e simplesmente retirá-lo da arena. Ao assistir esse tipo de contenda, minha avó gargalhava, batia palmas e ia ao frenesi como um torcedor ao ver seu time goleando daquele jeitinho estarrecedor. Historicamente falando, o sumo está ligado de maneira profunda ao Shintoísmo ou, com mais precisão, ao culto localizado aos kami (os “deuses”, em tradução apenas aproximada) realizado em determinados santuários. A luta fazia parte de um ritual associado à dança no qual se representava (ou melhor, revivia-se) um homem lutando contra um kami, com toda a carga de desafios sagrados que isso pode implicar. Inclusive, há uma divindade voltada para o sumo, denominada Nomi no Sukune. Por isso, como dito, não é casual que o juiz esteja trajado como sacerdote shinto. Durante a Era Edo, Ieyasu Tokugawa (1543 – 1616), o primeiro shogun da família Tokugawa, constituiu-se num dos grandes admiradores da luta, realizando uma série de campeonatos e delimitando uma série de regras hierárquicas de conduta para os sumotori (seja de vestimenta, alimentação e tipo de cabelo), o que era próprio do espírito profundamente ordenador de Ieyasu, que praticamente regulamentou todos os aspectos sociais da vida japonesa. Mesmo hoje, as contendas são profundamente ritualizadas. Inclusive, os rituais tomam mais tempo que a luta propriamente dita. Antes de serem iniciados os torneios, realiza-se o dohyo iri, em que os lutadores apresentam-se vestidos com o kesho mawashi e organizados em círculo, sendo apresentados ao público pelos juízes. Antecedendo o embate entre dois sumotori, ambos apresentam-se diante da platéia e realizam o shiko, uma espécie de exercício em que se batem ambas as pernas ao solo com o objetivo de espantar os maus espíritos, o que é tipicamente shintoísta. Ambos voltam para os cantos do dohyo e recebem o chikara mizu (literalmente, “água poderosa”) e o chikara gami (“papel poderoso”). Os lutadores jogam sal na arena, substância purificadora segundo o imaginário shinto, e somente depois de vários procedimentos começam o embate propriamente dito. Sem os ritos praticamente não haveria sumo. É óbvio que as limitações deste artigo não dão conta do universo do sumo, perpassado de ritos, protocolos de comportamento, hierarquias e técnicas, muitas técnicas. Porém, espera-se que se tenha conseguido no mínimo sugerir que, para além de uma luta exótica entre dois obesos que se empurram, trata-se de um produto cultural profundamente complexo. Afinal, deem uma colher de chá para as bachan e dichan que tanto gostam de sumo. Sentem juntos e batam suas palmas.
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