| Entre os Senzo e os Yûrei: Espíritos Ancestrais e Fantasmas no Japão | ||||
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| Colunista - Richard Gonçalves André | |||
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Richard Gonçalves André Escravos que arrastam correntes à noite, mulheres sombrias que aparecem nas beiras de estradas, ranger de passos invisíveis em escadas antigas: tratam-se de narrativas fantasmagóricas que, como anotou o sociólogo Gilberto Freyre em “Assombrações do Recife Velho” (cuja primeira edição é de 1955), fazem parte do imaginário popular brasileiro, acreditem as pessoas ou não. Tal como no Brasil, porém em proporções muito maiores, os espíritos fazem parte essencial da cultura japonesa. É o assunto sorrateiro da semana. Apesar das semelhanças notáveis no que se relaciona aos padrões das narrativas fantasmagóricas no Brasil e no Japão, cumpre anotar uma distinção fundamental no tocante à postura existente diante da questão. Entre os brasileiros, apesar da abundância de histórias (ou estórias, palavra que tem caído em esquecimento, não obstante sua utilidade), estas acabam sendo relegadas ao folclore, conjunto de saberes populares atribuído a crendices e superstições. Ou seja, são de pronto desqualificadas no âmbito do conhecimento. Quando muito, são consideradas parte da cultura popular, embora muitos cientistas não saibam exatamente o que querem dizer com isso. Na prática, quando alguém diz que tem medo de fantasmas, a reação dos outros é o riso ou certo desdém arrogante (como é, aliás, todo desdém, com o perdão da redundância). Enfim, entre brasileiros, a tônica recai mais em “estória” do que em “história”. No Japão, a postura é diferente. As narrativas de fantasmas, exceto talvez entre os mais céticos, são quase consideradas “fatos sociais” (para utilizar com consciente exagero o conceito do sociólogo Émile Durkheim). O que seria motivo de riso no Brasil, entre japoneses seria considerado motivo de seriedade e certa preocupação. Afinal, o contato com os espíritos faz parte integrante da cultura nipônica. Há bairros, hotéis e estradas que são considerados particularmente assombrados. Em alguns deles, recomenda-se deliberadamente que os transeuntes não passem à noite, correndo o risco de sofrerem experiências desagradáveis diante de um sobrenatural não tão sobrenatural assim. Afinal, praticamente não se questiona que “eles” estejam lá, são quase parte da natureza (o que não seria nem um pouco estranho ao Shintoísmo, por exemplo, que aceita que objetos e lugares sejam portadores de espíritos). Entre japoneses, a tônica recai mais em “história” do que em “estória”. Contudo, num universo cultural tão hierarquizado como o nipônico, também seus espíritos podem ser divididos em certas classificações. Por um lado, haveria aqueles considerados ancestrais (senzo) e protetores do lar, e a ideia não é estranha a muitos nikkeis. Uma vez falecido, o cadáver deveria passar por uma série de protocolos relativos ao velório e ao sepultamento, geralmente incumbidos aos monges budistas (embora no Japão o processo esteja sendo atribuído, de modo crescente, a empresas laicas). Durante quarenta e nove dias, no interior do imaginário do budismo nipônico, acredita-se que o espírito permanece em casa ou sobre o telhado. Entretanto, ainda não seria um ancestral propriamente dito, posto que estaria confuso e preso à vida material. Por isso, seriam necessários ritos periódicos a cada sete dias. No quadragésimo nono, seria realizado um dos principais rituais, que marcaria a “estabilização” do falecido e sua transformação em senzo. Este deve ser reverenciado no butsudan, o oratório de caráter budista, por intermédio do ihai, tabuleta onde se escreve o nome (inclusive monástico, atribuído após a morte pelo monge) e a data de falecimento. Entretanto, é válido lembrar que, no Budismo japonês, a ideia de transmigração da alma através de vários círculos de reencarnações, fundamental no Budismo indiano, é relativamente inexistente. O ancestral permaneceria protegendo os viventes, daí a prática de inserir oferendas (geralmente alimentos) no butsudan. Ou seja, “eles” estão em casa, o que me fez lembrar de um amigo sansei que, algo aterrorizado com essa presença sobrenatural, passava longe do oratório, esquecendo, porém, que os ancestrais seriam os “bons mortos”. Porém, haveria também os espíritos ameaçadores (yûrei), geralmente representados na iconografia nipônica sem pernas. Não digo “maus” porque tais entidades seriam mais confusas que propriamente maléficas, embora as consequências de seus atos pudessem soar como um banditismo sobrenatural. Tais fantasmas seriam gerados por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, devido a mortes incomuns (embora muito comuns hoje em dia): assassinatos, suicídios, abortos, entre outros, gerariam candidatos em potencial para tornarem-se yûrei, dado que o ciclo da vida teria sido interrompido de maneira brusca. Em segundo lugar, indivíduos para os quais os ritos mórbidos (kuyô) acima citados não foram devidamente cumpridos também podem tornar-se instáveis, uma vez que a transição vida/morte não teria sido propriamente realizada (lembrando que, segundo Arnold van Gennep, em seu “Rites of Passage”, a morte, tal como o casamento, também é um rito de passagem). Somente para citar um exemplo, talvez dos mais clássicos, existe a narrativa de Okiku, serviçal do samurai Tessan Aoyama. Assassinada por seu amo por ter quebrado uma peça de cerâmica, seu cadáver teria sido jogado no poço do castelo. Depois disso, Aoyama foi levado à loucura por ouvir o yûrei de Okiku contando as peças de cerâmica. Existem várias versões para a história (ou estória para quem preferir), mas o essencial da narrativa está aí: morte violenta e destituída de ritos que gera um fantasma confuso e potencialmente vingativo. O tema é recheado de casos (e “causos”, como se diria no Brasil) que dariam margem a mais páginas. Contudo, já que os fantasmas japoneses não têm pernas, é hora de parar. Fica anotado que, entre histórias e estórias, sejam os senzo ou yûrei, os espíritos fazem parte, sejam protegendo ou ameaçando os viventes, do imaginário cultural nipônico.
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