Nyûkon: Inserir a Alma no Objeto
Sáb, 07 de Novembro de 2009 10:59    PDF Imprimir E-mail
Colunista - Richard Gonçalves André

Richard Gonçalves André


Apesar da diversidade religiosa existente no Brasil, as festividades católicas, sejam teológicas ou populares, encontram-se bastante difundidas em várias regiões do país. É comum realizarem-se procissões com imagens de santos ou outras figuras consideradas sagradas no imaginário do Catolicismo, havendo uma verdadeira devoção não somente àqueles ali “representados”, mas ao próprio objeto/instrumento de veneração. Há, obviamente, críticas à prática, como é o caso do pastor que, há alguns anos, criou polêmica chutando em pleno programa televisivo a imagem da Virgem.
No entanto, gostando-se ou não, acreditando-se ou não, o que não cabe ao cientista da religião julgar, trata-se de costume arraigado, o que não constitui, porém, exclusividade dos brasileiros. No Japão, há também uma relação muito próxima entre a imagem e a personagem religiosa, fenômeno explicado pela expressão nyûkon.
A palavra é escrita em japonês através de dois ideogramas: nyû (lido também como ireru), que significa “colocar”, e kon (isoladamente tamashii), que remete a “alma”. Trata-se, portanto, de inserir a alma em determinado objeto. Antes de aprofundar a discussão, é válido refletir em torno do conceito de representação. No Ocidente, pelo menos desde o século XIX, “representar” significa fazer referência a algo que, em essência, não está exatamente no objeto. As imagens criadas pelo pintor brasileiro Pedro Américo, por exemplo, podem representar a independência do Brasil, mas o evento em si não está no quadro, que apenas alude ao fato. Utilizarei um raciocínio teatral: o ator desempenha um papel, não propriamente encarnando (que seria algo mais próximo da possessão) o personagem, apenas realizando uma performance.
Por outro lado, existe outra noção de representação, contraditória à primeira significação, em que o objeto traria a essência (ou parte dela) do representado. Quando um indivíduo numa tribo indígena realiza um rito em que “encena” a criação do mundo pelos deuses, não se trata de mera “performance”, mas da crença de que as divindades estão novamente no mundo, em carne e osso. Aquele que desempenha o rito, assim, não pode ser reduzido a um ator. Como chama a atenção o historiador italiano Carlo Ginzburg, na Idade Média e Moderna, os funerais dos reis franceses e ingleses contavam com um “boneco” dos monarcas feito de couro ou madeira que eram entendidos como os soberanos em si. Hoje em dia, quando se rasga ou queima-se a fotografia de uma pessoa malquista, pensa-se numa noção de representação muito próxima ao segundo significado.
Saltando para o Oriente (e talvez esses saltos espaciais e temporais cheirem mal para alguns historiadores), o nyûkon está mais próximo da segunda noção de representação. Determinados objetos religiosos não seriam meras alusões às coisas ou entidades sagradas, devendo, antes, receber a alma do representado. Por exemplo, os ihai são tabuletas que, inseridas no butsudan (o oratório doméstico de caráter budista), contêm o nome do falecido.
Diariamente, devem ser reverenciadas com ofertas de água e comida (aliás, quem foi ao cemitério no recente Finados deve ter percebido a profusão de alimentos, de pipoca a refrigerante, existente em alguns túmulos e nos cruzeiros), o que indica que a alma do morto estaria ali, numa das mais profundas e interessantes confusões do Budismo nipônico (praticamente inexistente no Budismo indiano): ao mesmo tempo em que o espírito iria para o outro mundo (a Terra Pura), permaneceria na casa através do ihai. Ora, para que a tabuleta deixe de ser mera tabuleta, é necessário que o monge budista, um dos poucos com autoridade e treinamento suficiente para realizar o feito, empreenda o nyûkon. A partir de então, o pedaço de madeira com uns borrões de tinta passariam a ser o espírito em si. Mesmo estátuas religiosas como aquelas de Kannon, divindade feminina que teria alcançado a iluminação búdica (satori no Japão ou nirvana na Índia), deveriam receber o nyûkon.
Mais um salto espacial e temporal para temperar (e complexificar) o fenômeno: com a imigração, diversas religiões japonesas foram trazidas para o Brasil e mesmo popularizadas entre o público não-descendente. Por questão de comodidade, também chamo de “religião japonesa” o Budismo que, mesmo tendo nascido na Índia, ganhou cores muito, muito e muito particulares no Japão. Segundo relata o sociólogo Takashi Maeyama em sua dissertação de mestrado, em Ibiúna (SP) alguns sacerdotes da Seichô-no-ie, que teve grande influência do Budismo nipônico, realizavam o nyûkon nas imagens de Kannon, o que não difere muito do que foi descrito.
Contudo, em contato com a religiosidade nacional, mesmo pequenas imagens de Cristo crucificado (semelhantes ao Redentor no Pão de Açúcar), receberam o nyûkon, na medida em que mesmo o espírito de Cristo, provindo de uma religião totalmente diferente, teria de ser infundido à imagem. Assim, as estatuetas poderiam ser veneradas no kamidana, o oratório de caráter Shintoísta dedicado aos kami (divindades) ancestrais... e também àqueles verde-amarelo, pelo menos nos trópicos.
Depois de refletir sobre o nyûkon, talvez a devoção das mil e uma nossas senhoras do Catolicismo popular (com o perdão do pluralismo) comece a fazer sentido aos críticos mais ferrenhos. Sem dúvida, há uma distância teórica, prática e histórica gigantesca entre as religiões ocidentais e orientais, e talvez este artigo peque um pouco nesse sentido. No entanto, talvez às vezes não seja lá pecado pensar objetos de devoção tradicionais com lentes de observação alheias...