| Ocidente e Oriente: Duas Concepções de Natureza | ||||
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| Colunista - Richard Gonçalves André | |||
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Richard Gonçalves André No filme “Sonhos”, do diretor japonês Akira Kurosawa (1910 – 1998), composto por diversos episódios independentes relativos às visões oníricas do autor, há uma passagem significativa no que se relaciona às concepções de natureza existentes no Japão tradicional. Em pleno hina matsuri, o dia das meninas, em que as residências são ornadas com bonecos e são realizados ritos femininos, um garoto observa extasiado a dança dos espíritos de diversas cerejeiras que haviam sido cortadas. A obra de Kurosawa indica uma noção de natureza espiritualizada e profundamente diferente das visões inerentes ao moderno Ocidente, assunto que abordarei nesta semana. No mundo ocidental, o conceito de natureza (que, na verdade, possui significados infinitamente amplos) é muitas vezes confundido com recurso natural, isto é, o conjunto de elementos passíveis de serem utilizados pelos seres humanos com múltiplos fins. Trata-se de uma noção marcadamente instrumental, na qual, por exemplo, uma árvore não seria compreendida enquanto detentora de valor por constituir uma forma de vida, mas por sua utilidade e valor econômico. Não coincidentemente, classifica-se a madeira de lei como material nobre (e caro) quando comparada às outras madeiras, matérias-primas de “segunda categoria”. É precioso recordar que isso não é uma divisão naturalmente existente, mas uma criação dos homens, que dão nome às coisas de acordo com sua própria conveniência e instrumentalidade. Segundo o historiador britânico Keith Thomas, em seu livro “O Homem e o Mundo Natural”, as próprias religiões judaico-cristãs, o fundamento de uma das principais formas de religiosidade do Ocidente, tornam legítima essa visão. Mitologicamente, os primeiros seres humanos teriam sido Adão e Eva que, vivendo no jardim do Éden, teriam uma relação harmônica com o restante da criação. Contudo, após terem experimentado o fruto do conhecimento, a fonte do pecado original, teriam sido expulsos do paraíso e obrigados a viver através do trabalho (daí a sua concepção original remeter à palavra tortura), derramando o suor de seus próprios rostos. Ironicamente, Deus teria afirmado que a humanidade deveria submeter toda a natureza ao seu próprio jugo para a satisfação de suas necessidades, argumento que deu suporte à noção segunda a qual o homem, mesmo após as mazelas originais, teria sido a obra-prima da criação, em detrimento de todo o resto do universo, que deveria apenas servi-lo. O discurso científico, surgido no século XVI europeu, apenas veio a justificar, a partir de outro ponto de vista, essa noção instrumental. Em primeiro lugar, dessacralizou toda a natureza afirmando que esta seria matéria, sendo o espírito outra coisa que não caberia ao homem julgar. A partir de então, através de pensadores como René Descartes (1596 – 1650) e Julien Offray de La Mettrie (1709 – 1751), o universo seria como um relógio estruturado com várias peças, cabendo ao cientista entendê-lo e porventura consertá-lo. Francis Bacon (1561 – 1626), um dos arautos da ciência moderna, reconstruindo o raciocínio das religiões judaico-cristãs, afirmou que o dever da ciência seria melhor compreender a natureza para explorá-la, escravizando-a de acordo com os imperativos humanos. Ora, não cabe julgar se foi a religião ou a ciência a culpada pela postura diante da natureza. Todavia, de fato, esses dois discursos serviram para tornar legítima a (im)postura ocidental perante o resto do mundo, como se o homem fosse algo muito especial, seja por ser racional ou por ser criação de Deus, menos um animal, o que de fato é. O banheiro pode ser lindo, mas o que se faz ali são necessidades fisiológicas. Em contraposição, não quero dizer que o Japão seja o paraíso esquecido pelos ocidentais. Seria um erro idealizá-lo perante uma realidade degradada. Não se pode esquecer que se trata de um país industrial com altos índices de poluição, que precisa importar boa parte dos alimentos de outras regiões do mundo. Entretanto, pelo menos até o início da Era Meiji (1868 – 1912), havia uma concepção de natureza que, como citado nas primeiras linhas deste artigo, era profundamente diferente em relação à noção existente no Ocidente. As raízes do Shintoísmo, o multifacetado culto às divindades denominadas kami, e o próprio Budismo influenciaram uma visão do mundo natural segundo a qual toda a matéria, animada ou inanimada, possuiria vida e seria dotada, portanto, de espíritos. Árvores, animais, rios, montanhas, rochas, cavernas, entre outros exemplos, seriam habitados por kami que deveriam ser devidamente respeitados e reverenciados. Não é coincidência as milhares histórias de raposas e texugos que pregariam peças nos mais desavisados. O citado filme de Kurosawa é um excelente indício desse imaginário, na medida em que as árvores, em sua dança final, criticam a atitude dos homens que as cortaram. A obra do roteirista e diretor de animê Hayao Miyazaki, autor do clássico “Meu Vizinho Totoro”, também é repleta de referências: em “Princesa Mononoke”, os espíritos das árvores (kodama, uma palavra que realmente existe na língua japonesa) correm pelas florestas. Aliás, tanto Kurosawa quanto Miyazaki possuem uma crítica ecológica que perpassa, direta ou indiretamente, suas produções. Isso não quer dizer que os japoneses, seja de ontem ou de hoje, mantenham a natureza enquanto um universo intocado, posto que sagrado. É sabido que, durante o Shogunato, entre os séculos XII e XIX, foram desenvolvidas artes de manipulação do mundo natural que, apropriadas da China, popularizaram-se no Japão. No bonsai, por exemplo, concebe-se que plantas, geralmente árvores, possam ser miniaturizadas em vasos e moldadas de acordo com a sensibilidade estética do bonsaísta. O ikebana, também, pressupõe também o arranjo floral de acordo com a concepção artística do produtor. A diferente postura diante da natureza não quer dizer cortar absolutamente as relações desta com os seres humanos, o que seria impossível, uma vez que os homens, como afirmado, não deixam de ser animais que, no entanto, produzem cultura. A peça fundamental seria questionar as nossas atitudes diante do mundo natural e perguntar até que ponto são legítimas, porquanto sejam culturalmente produzidas. Somente para concluir, atualmente, talvez mais que nunca, é vital repensar as relações entre homem e natureza, pelo simples e trágico fato de que nós vamos morrer se não pararmos para pensar. Ocidente e Oriente, mesmo com formações culturais específicas, não devem ser considerados realidades incomunicáveis. Afinal, creio que ainda temos algo a aprender com o Japão.
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