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Richard Gonçalves André Os japoneses definitivamente não são todos iguais, ao contrário do estereótipo parcialmente reproduzido no Ocidente. No interior do território nipônico, dividido em várias regiões, há uma multiplicidade de culturas distintas. Basta citar, por exemplo, as diferenças em relação a Okinawa e Hokkaido, Tokyo e Osaka, entre outras. Contudo, em certas regiões do Japão, há minorias étnicas pouco conhecidas entre os ocidentais, como é o caso dos ainu. De modo geral, os ainu são considerados grupos indígenas ou nativos existentes em certas regiões do país, isto é, os habitantes supostamente originais do território, embora a linha que separe o “índio” (conceito, aliás, descontextualizado) do restante da população, comumente considerada de origem “invasora”, seja bastante tênue. Ao longo da história, em passado distante ou recente, todos os povos passaram por migrações, o que gerou, por consequência, invasões e conflitos com outros grupos. Creio que o raciocínio por si obrigue a repensar certos conceitos. De qualquer forma, os ainu são considerados atualmente um grupo de minoria étnica. Apesar das controvérsias, calcula-se que haja aproximadamente vinte e cinco mil indivíduos pertencentes à etnia. Porém, através da miscigenação com os japoneses (ou mesmo com os russos), muitos deles vivem integrados na sociedade nipônica, não obstante a discriminação ainda existente, cujas razões são fundamentadas na trajetória histórica que os envolve. Nesse sentido, as estimativas não-oficiais indicam cerca de duzentos mil indivíduos, embora não haja consenso a esse respeito. Os ainu, ao longo da história, ocuparam as regiões japonesas de Honshu e Hokkaido, situadas respectivamente no centro e norte do país, bem como a ilha Sakhalin (Sacalina), hoje pertencente à Federação Russa. Trata-se de povos que viviam da caça e da coleta, tendo, portanto, caráter seminômade. Sendo organizado de forma comunitária e, portanto, com pouca estratificação social, o grupo possuía uma língua totalmente diferente da japonesa, malgrado tenha havido algumas trocas de palavras no decorrer do tempo. Não tendo uma linguagem escrita, os ainu fundamentavam sua cultura na transmissão oral, ou seja, no tête-à-tête de pai para filho, baseado em versos e músicas que reconstruíam as histórias consideradas sagradas (é preciso lembrar que os japoneses, até a adoção dos ideogramas chineses no século VIII, também se calcavam na oralidade). A religião possuía caráter animista, isto é, acreditava-se que todos os seres, animados ou inanimados, possuíam vida, semelhantemente às raízes do Shintoísmo, os chamados culto aos kami, não obstante seja difícil afirmar uma conexão entre as duas formas de religiosidade. Os primeiros relatos em torno dos ainu remontam ao século XIII d.C., embora sua presença seja provavelmente mais antiga nas regiões em questão. Os registros são quase contemporâneos, com diferença de um século, da estruturação do Shogunato no Japão. Aliás, o famoso anime “Mononoke Hime” (“Princesa Mononoke”), dirigido por Hayao Miyazaki, faz referência aos ainu aludindo ao Período Muromachi, na medida em que um dos protagonistas, Ashitaka, seria descendente dos Emishi, a forma como os japoneses denominavam os ainu. No entanto, foi com a decadência dos shogun em meados do século XIX que o grupo sofreu uma série de violências por parte do governo nipônico. Com a Restauração Meiji (Meiji Isshin) em 1868, que devolveu os poderes ao imperador (tenno), a região de Hokkaido, até então independente, foi anexada ao Japão. Primeiramente, porque se tratava de área estratégica do ponto de vista militar, porquanto fizesse fronteira marítima com as ilha Sakhalin, na Rússia, concorrente do Japão na corrida imperialista. Além disso, as terras ao norte, ainda que extremamente frias, poderiam ser ocupadas e transformadas em áreas produtivas, do ponto de vista, é claro, do governo Meiji. A consequência da anexação de Hokkaido ao Japão foi que os ainu, então residentes principalmente na região, foram transformados teoricamente em cidadãos japoneses. O governo Meiji, que os considerava povos atrasados na escala evolutiva das civilizações, raciocínio apropriado (como vários outros) do Ocidente, esperava que assumissem a cultura nipônica e, portanto, caminhassem na direção do que era considerado progresso, segundo a perspectiva de uma arrogante parte de políticos e intelectuais do Mikado. Na prática, o grupo passou a sofrer uma série de discriminações em razão da diferença étnica, postura que sobrevive ainda hoje. Boa parte de suas terras foram ocupadas, transformadas em zonas militares, em campos de agricultura e minas. Dessa forma, a incorporação de Hokkaido teve efeitos bastante perversos para os ainu, teoricamente japoneses, mas nunca japoneses de fato. Ironicamente, somente em 2008 (sim, no ano passado) a postura do governo foi revista, uma vez que os ainu passaram a ser considerados grupos de minoria étnica com uma cultura diferente e, portanto, irredutível ao modelo nipônico. A decisão gerou controvérsias e, embora tenha representado um passo à frente na relação entre culturas, ainda não resolveu o preconceito que ainda persiste em existir num mundo plural. De modo geral, percebe-se que os ainu constituem um grupo étnico de minoria que, no Japão, possuem uma cultura ímpar. Sua diferença nem sempre foi respeitada como detentora de valor, mas como um passo a caminho da pretensa civilização, postura etnocêntrica e equívoca. Hoje são construídos museus e centros de pesquisa em torno de sua cultura, bem como pontos turísticos do Japão são dedicados aos ainu, mas sua inclusão ainda permanece um longo caminho.
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