De Benevolentes a Trapaceiras: as Raposas na Cultura Popular Japonesa
Sex, 12 de Junho de 2009 21:00    PDF Imprimir E-mail
Colunista - Richard Gonçalves André
Richard Gonçalves André  Nos primeiros anos da Era Meiji (1868 – 1912), o periódico “Meiroku Zasshi” criticava, em um de seus artigos, a crença popular em torno dos poderes sobrenaturais das raposas (kitsune). Do ponto de vista da elite intelectual japonesa, que compunha o quadro de autores que escrevia para a revista, tratava-se de manifestação da superstição da “gente ignorante”, reduzindo o tema à categoria das crendices ou folclore. Contudo, elitismos e preconceitos à parte, o assunto merece uma abordagem que transcenda o folclórico e pitoresco.No interior da cultura popular, que não se reduz à caricatura imposta pelo folclore, as raposas são concebidas como animais que possuem poderes mágicos. Dentre suas habilidades, seriam capazes de assumir outras formas, principalmente de seres humanos e, particularmente, de belas mulheres. Não coincidentemente, Jôtaro, garoto personagem do romance “Musashi”, de Eiji Yoshikawa, assusta-se ao ver a jovem Otsu no alto de uma colina sob uma noite de luar: julga-a uma kitsune. As lendas nipônicas são perpassadas de raposas que, transformadas em graciosas jovens, acabam por seduzir homens, porventura se casando e tendo filhos (que possuiriam, por sua vez, capacidades extraordinárias), até que o marido descobrisse a verdadeira natureza da esposa. Não se trata apenas de trapaça, mas de histórias de cunho romântico.Além disso, ligadas à metamorfose, as raposas seriam capazes de criar ilusões bastante semelhantes à realidade, utilizando-se do artifício para pregar peças, por exemplo, em indivíduos gananciosos que, pensando ter em mãos metais ou pedras preciosas, carregam apenas pedras ou galhos. Talvez por isso as histórias em torno do animal tenham se tornado tão populares na literatura budista japonesa: o Budismo baseia-se na idéia de que os desejos, fontes de sofrimento, seriam apenas ilusões que, uma vez superadas, levariam à iluminação. Ainda que contemporâneo e escrito por um autor ocidental, o livro de Neil Gaiman, “Caçadores de Sonhos” (ilustrado por Yoshitaka Amano, famoso pelo design gráfico da série de videogame “Final Fantasy”), é significativo, narrando a história do romance entre um monge budista e uma raposa. Outra habilidade seria incorporar-se espiritualmente em determinada pessoa (que assumiria, em partes, as feições do animal), modificando seu comportamento e exigindo rituais de exorcismo executados por sacerdotes shintoístas e, principalmente, monges budistas. A incorporação era levada muito à sério até o século XIX, sendo inclusive anunciada em alguns jornais (provocando a ira dos articulistas do “Meiroku Zasshi”). Segundo Hirotika Nakamaki, professor do Museu de Etnologia de Osaka, mesmo o bonzo Tomojiro Ibaragui, um dos fundadores do Budismo no Brasil, teve de lidar em pleno século XX com um indivíduo que se acreditava possuído por milhares (sim, milhares) de raposas. Conta-se que, no Japão antigo, se o exorcismo formal falhasse, o incorporado poderia ser até mesmo espancado até que a entidade deixasse seu corpo.Assim, as raposas possuiriam uma série de habilidades mágicas que a tornariam uma entidade de destaque no imaginário nipônico, sendo ligadas, principalmente, à idéia de ilusão. Acredita-se que, à medida que se tornasse mais velha, seus conhecimentos e habilidades seriam expandidos. Suas fases de crescimento seriam marcadas pela quantidade de caudas, que poderiam chegar a nove, determinando seu auge. Não obstante terem sido popularizadas como entidades trapaceiras, o que possui algum respaldo no Ocidente, as raposas dividem-se, basicamente, em duas categorias: por um lado, haveria as yako (raposas forasteiras), de caráter malicioso; por outro, as zenko (raposas boas) deveriam ser reverenciadas como kami, as divindades tradicionais japonesas que deram origem ao Shintoísmo. A princípio, as kitsune eram vistas como mensageiras de Inari, o kami ligado ao arroz (e à fertilidade de modo geral), mas, posteriormente, passaram a assumir o próprio estatuto de divindade. Nos santuários dedicados a Inari, há inúmeras estátuas de raposas, existentes também em outras regiões do país, como as estradas, principalmente de caráter rural. Diante das estátuas, realizam-se orações e mesmo oferendas de alimentos em troca de proteção.As origens da crença possuem, basicamente, duas fontes. Em primeiro lugar, estão presentes na cultura popular japonesa ligada ao culto aos kami, existente desde a introdução das influências chinesas e, portanto, do próprio Budismo. Os povos tradicionais do Japão, como os Emishi, cultuavam uma série de divindades ligadas especialmente à natureza, incluindo-se raposas e texugos, consideradas protetoras da floresta e fonte de fertilidade, em sentido amplo, seja da agricultura, dos animais ou mesmo das mulheres. Aceitava-se, além disso, que os espíritos de pessoas falecidas poderiam manifestar-se por intermédio de determinados animais, principalmente pássaros, mas não se exclui também o papel das raposas.Por outro lado, as histórias de raposas também se encontram presentes na cultura chinesa que, formalmente, consolidou-se com a introdução do Budismo no século VI (trata-se da datação oficial, embora certos especialistas, como Luiz Dantas, afirmem o desenvolvimento de idéias e práticas budistas anteriormente). Como afirmado, sendo as raposas fontes de ilusão, tornou-se prato cheio para a reflexão dos monges. Além disso, como a religião aceita a idéia de múltiplas reencarnações (inclusive em objetos inanimados, como agulhas e pincéis), havia a possibilidade dos ciclos de nascimento e morte passarem eventualmente pelas raposas. Por fim, é válido ressaltar que, como os bonzos tornaram-se no Japão especialistas na prática do exorcismo, eram requisitados, como afirmado, para expulsar raposas maliciosas dos possuídos.

Desta forma, possuindo múltiplas origens, japonesas e chinesas, as raposas desempenham papel de destaque no imaginário nipônico, ora agindo como entidades maliciosas que enganam os homens com o sorriso sedutor na imagem de mulher, ora sendo reverenciadas como kami protetores. Mais que tema reduzido ao folclore, trata-se de fonte inesgotável para análise e reflexão em torno da cultura popular.