| O jeito japonês de tratar o lixo | |
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Denise Somera Quem nunca ouviu alguém contar que “montou sua casa com objetos do lixo”, no Japão? Que encontrou geladeira, estantes, aparelhos de som, dvds, tudo... no lixo? Este tipo de afirmação sempre intrigou brasileiros que entendem “lixo” como aterro sanitário, lixão, aquele lugar afastado da cidade, cheio de sacolas diversas e com mau cheiro. Este tal lixo em que encontrava-se coisas novas só podia ser no Japão mesmo. Pois bem, realmente isso existia. Era o sodai gomi, ou lixo de grande porte, que funcionava quase como uma “venda de garagem”, que vimos em filmes americanos. Eram marcados local, dia e horário de início e término e quem queria desfazer dos seus objetos os levavam lá, para terem um novo destino ou, recolhidos pela prefeitura no final. “Os itens encontrados geralmente estavam em perfeitas condições. Meu marido encontrou, no sodai gomi, um violão”, conta Glória Hamasaki, dekassegui no Japão por quatro anos. “Os dekasseguis eram bastante solidários quando a gente chegava no Japão, doando objetos e indicando o sodai gomi”, explica. Nestes encontros ela lembra ter pegado estantes, bicicleta, aspirador de pó, entre outros, todos em perfeito estado. “Como tinha horário para começar e principalmente, para terminar, o que ficava no final era recolhido pela prefeitura”, relembra. Novidade para os brasileiros, a lei do lixo mudou a partir de 2001 no Japão, nascendo uma nova oportunidade de negócios no país: as lojas de móveis usados. O sodai gomi, como existia antes foi extinto. Agora, o lixo de grande porte como móveis e itens domésticos (menos geladeiras, televisão, máquina de lavar roupa e ar-condicionado) tem o destino dado pela prefeitura e, quem quiser se desfazer deles, terá que agendar com o órgão e ainda, pagar uma taxa para a coleta. Os itens não podem ter um dos lados maior do que 30cm e eletrodomésticos maiores, como geladeira, máquina de lavar, etc, o dono precisa entrar em contato com o fabricante e este, fazer a retirada. O consumidor arca com a taxa de retirada, que variam com a distância e a empresa. Com esta mudança de regras, nasceram os “mercados das pulgas” ou lojas de móveis usados, o que antes no Japão praticamente não existia. “E aí, a comercialização destes produtos, semi-novos, é como aqui no Brasil”, explica Glória. Com os hábitos culturais do Japão de sempre trazer uma ‘lembrancinha’ em viagem ou um presente quando fazem visita à casa de alguém, estas lojas ainda possuem produtos novos, embalados. “Muitas vezes a pessoa não gosta ou já tem o produto e aí, guarda do jeito que ganhou. Este comércio se beneficiou disso também”, conta. Coleta seletiva - Se a falta de espaço faz do Japão um país prático e agilizado, estas qualidades alcançam também quando o assunto é lixo. Um dos maiores embates entre os imigrantes brasileiros e os japoneses é a separação do que se deve jogar fora: além da diferenciação dos materiais (o plástico, por exemplo, tem subcategorias), no Japão cada coleta tem seu dia específico, lugares para recolhimento, etc. Os brasileiros têm bastante dificuldade em se adaptar a estas regras, já que a coleta seletiva não é política pública em todos os estados. “Quem é aqui do Paraná acaba não tendo tanta dificuldade, mas quem é de outros estados acaba criando problemas”, conta Glória, que é coordenadora na Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD) e têm muito contato com quem vai e retorna do Japão. A divisão da reciclagem no Japão é bastante específica. Enquanto no Brasil o lixo é dividido entre reciclável, orgânico e rejeito, lá existem cinco tipos de lixo: lixo incinerável (moeru gomi), lixo não incinerável (moenai gomi), o lixo de grande porte (sodai gomi), lixo reciclável (shigen gomi) e o lixo nocivo (yuugai gomi). Existem ainda divisões dentro do lixo reciclável, como por exemplo: garrafas PET precisam, antes de serem eliminadas, ter o rótulo e a tampa jogadas em lixos separados, além de serem lavadas. Este procedimento estende-se também à latas. As garrafas PET, assim como utensílios de papelão (embalagens de leite ou bandejas) são recolhidas em supermercados ou centros de coletas públicas. Não é como aqui no Brasil, que o caminhão de lixo reciclável passa na frente de casa ou ainda, que catadores de lixo fazem este recolhimento antes do “oficial”. “Quando o dekassegui chega no Japão, os procedimentos iniciais é de ir até a prefeitura fazer o seu registro de morador e aí, recebe uma cartilha - em alguns lugares dão DVDs explicativos – que explica dias, horários e os procedimentos com o lixo no país. Pra quem não está acostumado, é realmente exagerado, mas de fácil adaptação”, explica Glória.
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