O perigo pode estar dentro de casa O Brasil está entre os países com maior número de casos de agressões sexuais contra crianças e adolescentes. Mudanças repentinas no comportamento das crianças, como agressividade e vergonha, entre outras, pode ser indício de abuso. De acordo com especialistas, em Londrina, em 90% dos casos registrados o agressor é conhecido da família. A única maneira de prevenir esse crime é explicar para a criança o que podem e o que não podem fazer com ela e ensiná-la a dizer “não”
A pedofilia mais perto do que se imagina
Estudos afirmam que a maioria dos agressores são parentes ou conhecidos da família. Alterações como irritação e vergonha de tirar a roupa na frente dos pais podem ser sinais de alerta
Vivian Fukushima  Cristina Watarai: “A maioria das denúncias sai da boca das próprias crianças” Reprodução  A preocupação com a pedofilia é mundial, como mostra o anúncio da Children and Adolescents Reference Center (Cerca) Vivian Fukushima De Londrina
Apesar de parecer algo distante, coisa que só se vê na TV, a pedofilia está mais presente na sociedade do que qualquer pai imagina. Este é um dos crimes mais denunciados no Centro de Referência Especializada de Assistência Social III (Creas) de Londrina. O Centro, criado pelo Governo Federal, atualmente é coordenado pelo Núcleo Social Evangélico de Londrina (Nuselon) em parceria com o município e atende casos de negligência, violência física e psicológica, abuso sexual e exploração sexual comercial de crianças e adolescentes com idades até 18 anos. De acordo com dados do Centro, o último levantamento, realizado em outubro desse ano, mostra que dos 337 casos atendidos, 302 estavam relacionados a abuso sexual. Deste total, 30 foram contra meninos de 0 a seis anos; 58 contra garotos de sete a 14 anos; um caso de violência envolvendo um jovem do sexo masculino com idade entre 15 e 18 anos; 52 casos contra meninas de 0 a seis nos; 132 envolvendo meninas de sete a 14 anos; e 29 contra garotas de 15 a 18. As meninas ainda são as principais vítimas, sendo que os casos envolvendo garotas de sete a 14 anos responde por quase 45% do total. De acordo com a psicóloga Cristina Fukumori Watarai, especialista em violência doméstica contra crianças e adolescentes, 40% dos abusos são praticados por pais e padrastos, e 90% dos agressores são conhecidos. “É muito triste essa constatação, mas é a realidade. Eles se aproveitam da inocência e criam um ambiente de confiança”, explica. Cristina afirma ainda que 30% a 35% dos agressores já foram vítimas. “Essas pessoas precisam de ajuda. De nada adianta serem presos. Na maioria das vezes sofrem abusos dentro da cadeia, mas quando saem, estão até piores. Por enquanto trabalhamos só com as vítimas, mas estamos buscando ajuda aos agressores”, diz. Para a promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina de Paula, a melhor maneira de combater o abuso sexual contra crianças e adolescentes é a castração química, realizada por meio de medicamentos hormonais que inibem a libido dos acusados. De acordo com a promotora, esse método já é utilizado com sucesso na Alemanha e evita que pedófilos voltem a cometer novos abusos ao saírem da prisão. “Estudos comprovam que o abusador, ao sair da cadeia, volta a cometer o crime. E a castração química evitaria isso”, explica. Édina afirma ainda que a principal consequência para as crianças vítimas de qualquer tipo de abuso sexual é a dor e a lembrança. “Muitas vezes, o pedófilo não pratica o ato sexual em si, mas força a vítima a fazer coisas que ela não consentiu. O que não deixa de ser uma violência contra esta criança”, diz. Conversa aberta na escola - Segundo a psicóloga, os professores deveriam falar mais abertamente a respeito de sexualidade com os alunos. “A maioria das denúncias sai da boca das próprias crianças, e onde elas passam a maior parte do tempo é na escola. No entanto, os professores não gostam de falar de sexo, quem dirá de abuso”, diz. Ela conta que, em 2007, o Nuselon decidiu publicar uma cartilha explicando e alertando contra o abuso sexual e foram até as escolas municipais da cidade divulgar. Cinco mil alunos de 1ª a 4ª série foram abordados como estratégia de prevenção. “Ao final de cada explicação pedíamos que, caso alguma criança quisesse conversar ou contar alguma segredinho, podia ir até a sala onde estaríamos. Mais de 200 alunos nos procuraram para contar que aquela historinha que estava na cartilha, também ocorria em sua casa”, diz. Cristina destaca mudanças súbitas no comportamento das crianças como uma das principais conseqüências do abuso. “A criança que era estudiosa passa a não querer mais fazer as tarefas, não presta atenção nas aulas, fica agressiva”. Outra mudança é a hipersexualidade. A psicóloga explica que a criança, geralmente as mais novas que não entendem que aquilo é errado, repete a situação pelo qual passou com os amigos. Estresse pós-traumático, como pesadelos, dificuldade de dormir, e sinais físicos como dificuldade de andar e sentar são algumas características que precisam ser investigados pelos pais. A promotora também ressalta esse ponto. “Devemos observar todos os sinais de mudança de postura da criança no comportamento de rotina. Se ela apresentar irritação exagerada, não quiser ficar sozinha com determinadas pessoas, sentir vergonha de tirar a roupa na frente dos pais, é sinal de que algo de errado está acontecendo”, diz. Cristina destaca a importância do diálogo como forma de prevenção. “A partir dos três anos, a criança já precisa saber as partes do corpo, onde podem tocar e onde não, quem pode ir com ela ao banheiro, quem pode tirar sua roupa e, principalmente, ensiná-la a dizer não”. De acordo com a psicóloga, as conseqüências de um abuso não tratado, podem ser traumáticas. “Muitas mães pensam que é melhor não falar a respeito, mas as crianças lembram. É um trauma tão grande que é impossível esquecer. E quando ela começa a entrar na puberdade, tudo o que ela viveu começa a voltar à sua memória”. Ela destaca pesquisas internacionais que indicam que 80% das prostitutas dizem ter sido vítimas de incesto. “É muito triste as conseqüências de um não tratamento. Não precisamos acabar com a ingenuidade das crianças, mas precisamos orientá-las melhor em relação à sexualidade. Essa falta de informação gera uma lacuna que favorece o abuso”, diz.
Brasil é líder em pedofilia na internet
País estaria entre os três primeiros colocados com maiores índices de abusos contra crianças e adolescentes  Vivian Fukushima De Londrina
Há um ano, o Senado instalou a CPI da Pedofilia para investigar crimes sexuais envolvendo crianças e adolescentes, tendo como presidente da comissão o senador Magno Malta (PR-ES). A comissão investiga a rede de pedófilos existentes no país, inclusive com a disposição de expedir mandados de prisão de criminosos já investigados pela polícia. Além disso, a CPI também investiga os crimes de pedofilia cometidos pela internet, que incluem a divulgação de imagens com pornografia ou cenas de sexo envolvendo crianças ou adolescentes. De acordo com Magno Malta, o Brasil é líder no ranking de países com maior incidência de crimes de pedofilia na internet, e o terceiro colocado dentre os países com índice de abusos sexuais de crianças e adolescentes. O delegado-chefe da Polícia Federal em Londrina, Evaristo Kuceki, afirma que, na cidade, em relação aos abusos pela internet, a situação não é tão alarmante. “Dos 1.600 casos que tramitam hoje na Polícia Federal, apenas um é relacionado à pedofilia”, diz. O delegado explica que, em sites de bato-papo, os pedófilos geralmente transitam em salas de seis a 16 anos e tentam contato com jovens usando atrativos como a linguagem, fotos falsas, entre outras. “Inclusive, eles fazem com que as crianças aliciadas levem para o bate-papo seus amigos, aumentando ainda mais a rede”. Kuceki destaca a importância dos pais estarem sempre atentos ao que os filhos estão acessando na internet. “Esse meio pode proporcionar muitas coisa boas, mas, se não usada corretamente, pode até acabar com a vida de alguém. É preciso ficar atento”, diz. A psicóloga do Creas III, Cristina Watarai, conta que, nesse caso, o trabalho é estendido também aos pais. “É preciso que a mãe, pai, ou outro responsável tenha consciência do que o jovem está vendo na internet. É certo deixar o computador no quarto da criança? Ela pode usar a qualquer hora? Tudo isso precisa ser avaliado”. (V.F.)
Como prevenir o abuso sexual - Pedofilia é uma perversão sexual, caracterizada pela opção sexual preferencial por crianças e adolescentes, de forma compulsiva e obsessiva. O pedófilo é um doente que pode cometer crimes contra crianças; - O pedófilo é uma pessoa aparentemente normal e muitas vezes bem inserida na sociedade; - A pedofilia é uma patologia muito freqüente em todos os níveis sociais e econômicos. Não é rara a presença de pedófilos no meio da família, nas escolas, nas praças, nos playgrounds, nos educandários, no ambiente esportivo, nas igrejas, em consultórios médicos e em todos os lugares onde possa encontrar crianças e adolescentes; - Na maioria das vezes o abusador sexual de crianças é alguém da própria família (pai, padrasto, avô, tio, cunhado, irmão mais velho, ou alguém sem vínculo familiar, mas próximo da criança); - O abuso sexual de crianças e adolescentes é crime. Cobre da polícia e do Poder Judiciário investigação minuciosa, a aplicação da lei e a proteção de seu filho e de outras crianças - A criança precisa falar sobre o que ocorreu. Ouça o que sua filha ou filho tem a contar e acredite neles; - Entre 18 meses e três anos, ensine seu filho o nome das partes do corpo; - Entre três e cinco anos, converse com a criança a respeito das partes íntimas do corpo e também como dizer “não”. Fale sobre a diferença entre o “bom e o mau toque”; - Após os cinco anos a criança deve ser bem orientada em relação à sua segurança pessoa e alertada sobre as principais situações de risco; -Após os oito anos, a criança deve ser iniciada a discussão a respeito dos conceitos e regras de conduta sexual que são aceitas pela família e fatos básicos da reprodução humana.
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