A Ocidentalização: o Japão descobre o Ocidente
Sex, 22 de Maio de 2009 21:00    PDF Imprimir E-mail
Variedades

Richard Gonçalves André

Dez anos depois da Restauração Meiji (1868), o Japão já não era mais o mesmo: os homens de colarinho branco, de terno e gravata a rigor, caminhavam em meio a grandes cidades como Tokyo, tornada capital do país desde a queda do último shôgun, dividindo espaço com elementos tradicionais, como os kuruma, os “carros” puxados por serviçais. A mudança da sociedade foi decorrente do processo de ocidentalização encetada pelos próprios políticos e intelectuais do novo governo, marcando a (re)descoberta do Ocidente pelos japoneses.De modo geral, afirma-se que o Japão fechou suas portas ao Ocidente durante aproximadamente 250 anos. De fato, o primeiro shôgun da família Tokugawa, Ieyasu (1543 – 1616), instaurou uma série de medidas popularizadas como “Cem Leis”, dentre as quais impedia que qualquer embarcação nipônica se afastasse do litoral, tal como a entrada de estrangeiros em território nacional. É preciso compreender as razões dessa atitude: no século XVI, alguns portugueses chegaram ao país a partir da região sul, especialmente Kyûshu e Okinawa, daí terem sido alcunhados nanban, isto é, “bárbaros do sul”. Semelhantemente ao que ocorreu na América, então em processo de descoberta e colonização, os lusitanos iniciaram a difusão do Catolicismo por intermédio dos padres jesuítas, como Francisco Xavier, Gaspar Vilela e Luis Frois.Logo em seguida aportaram também espanhóis e holandeses, que competiam com Portugal no intuito de descobrir novas terras, formar colônias e pontos comerciais. Entretanto, os cristãos vieram a envolver-se numa série de questões políticas, influenciando, principalmente, os senhores de terras (daimyô) sulistas. Além disso, foram utilizados como instrumento de luta por Nobunaga Oda (1534 – 1582) contra algumas escolas budistas consideradas dissidentes devido ao apelo popular (principalmente as escolas da Terra Pura e Nichiren). Após algumas hostilidades por parte de Hideyoshi Toyotomi (1536 – 1598), os cristãos foram perseguidos, oprimidos e expulsos pelos Tokugawa.Entretanto, os 250 anos de isolamento devem ser repensados em alguns pontos. Mesmo após as “Cem Leis”, a Holanda constituiu exceção e continuou tendo acesso ao Japão, ainda que de modo restrito. O privilégio teve razões ligadas à própria expulsão dos portugueses e do Cristianismo do país, uma vez que os holandeses, de acordo com as conveniências do momento, declararam-se submissos aos Tokugawa, afirmando que os ibéricos seriam uma ameaça. Segundo uma carta de Maurício de Nassau (1567 – 1625) a Ieyasu, em 1611, “os portugueses e os castelhanos têm a ambição de conquistar o universo”. Além disso, no massacre de Shimabara, episódio no qual os cristãos foram exterminados pelo Shogunato, os holandeses não somente forneceram armas de fogo, como também participaram diretamente da violência, como salienta Luiz Dantas. Por isso, ao longo do da Era Edo (1603 – 1867), tiveram acesso ao território nipônico por intermédio da ilha de Dejima, ilha artificial na baía de Nagasaki, não coincidentemente no sul do país. Porém, sua influência estendeu-se também para a questão da cultura, porquanto tenham se desenvolvido os rangaku, os “estudos holandeses”, que perpassavam áreas como a botânica, a zoologia e a medicina. Durante o isolamento Tokugawa, portanto, Dejima foi a porta de entrada para o Ocidente.Os anos de 1853 e 1854, contudo, marcaram um episódio significativo no que se relaciona à reabertura japonesa: o comodoro norte-americano Matthew Calbraith Perry (1794 – 1858) aportou em Yokohama com os “navios negros” (kurobune), exigindo que o país abrisse as portas ao comércio com o Ocidente. Os kurobune materializavam a superioridade bélica dos Estados Unidos quando comparada à do Japão.Após mergulhar em quase 15 anos de guerra civil, ocorreu a Restauração Meiji e os japoneses iniciaram um rápido processo de ocidentalização, pressupondo que o Japão deveria superar o atraso técnico e cultural apropriando do Ocidente o que havia de melhor. Médicos, militares, filósofos, pintores, fotógrafos, linguistas, entre outros profissionais de diversos países, foram convidados a lecionar sobre a multifacetada cultura ocidental.Somente para citar alguns exemplos, o jovem professor norte-americano Ernest Fenollosa (1853 – 1908) começou a ensinar filosofia para japoneses que viriam a se tornar figuras de peso no governo, motivo pelo qual foi apelidado daijin sensei, “professor de grandes homens”. Basil Hall Chamberlain (1850 – 1935) ensinou linguística e filologia na Universidade Imperial de Tokyo, sendo despedido, posteriormente, por questionar a mitologia que fundamentava a divindade do poder imperial. No começo do século XX, o historiador brasileiro Oliveira Lima (1867 – 1928) ministrou duas conferências no Getsuyôkai (Clube de Segunda Feira) sobre história do Brasil e literatura universal.O movimento não foi somente de fora para dentro, mas também o contrário, na medida em que diversos intelectuais japoneses começaram a estudar o Ocidente, inclusive como bolsistas em outros países, subsidiados pelo próprio governo nipônico, como Nishi Amane (1829 – 1897) e Tsuda Mamichi (1829 – 1903), já nos anos finais da Era Edo, o Bakumatsu. Ambos, em 1874, passaram a integrar um grupo de estudiosos cujas idéias haviam sido influenciadas pela cultura ocidental, publicando textos no periódico Meiroku Zasshi (literalmente, “Revista do Ano Seis da Era Meiji”). Amane, por exemplo, discutia assuntos como a separação entre Igreja e Estado (derivada do Iluminismo francês), questão particularmente delicada num país onde o imperador considerava-se um deus vivo. Outros estudiosos versavam sobre o estabelecimento de assembléias populares, a condição da mulher na sociedade e até mesmo sobre as “crendices populares” (do ponto de vista desses intelectuais) em torno de raposas e texugos.

Assim como o Ocidente (re)descobriu o Japão em meados do século XIX, o Japão (re)descobriu o Ocidente por intermédio da ocidentalização encetada pelos políticos e intelectuais da Era Meiji. Mais que o velho jargão do “copia e melhora” atribuído aos japoneses, tratou-se da apropriação do Ocidente, mas sempre com os olhos do Oriente.